O perfil do Chato Padrão

O perfil do Chato Padrão

Agora, lá pelos 44 anos, nos descobrimos como Chato, careta, sem graça ou sem qualquer charme especial. Diante da constatação, percebi a sorte de ter casado e ter tido filhos, já imaginou se nesta altura nada de bom tivesse realizado? A coisa é séria, não são apenas jogos de palavras ou para impressionar ninguém, tudo isto é fruto de uma reflexão mais detida do que somos, com uma boa dose de sinceridade e crítica, sem buscar perdão ou comiseração. É apenas um dado da realidade que, mesmo assim, não vai mudar muita coisa para frente, ademais, o passado já passou.

Senão vejamos, por volta dos 16 anos ou 17 anos experimentei bebida alcoólica, coisa de moleque, cachaça com limão e seriguela, um desastre completo. Além de não ter curtido o sabor, fiquei terrivelmente bêbado, por sorte não fiz nenhuma bobagem maior, principalmente por estar de férias na casa do meu querido avô, mesmo ele sendo liberal, não seria de bom tom aprontar na sua cidade. Cheguei a provar cerveja, mas o gosto, para meu pedalar, sempre me pareceu horrendo, o cheiro, nada me atraiu nesta bebida. Sempre cerveja foi a bebida mais popular entre meus amigos, então, o chato, era o estraga prazer, de apenas acompanhá-los, sem beber nada, o que realmente é visto como uma companhia “meia-boca”. Mais de 20 anos depois arrisco a tomar uma taça de vinho, mas posso perfeitamente passar sem ela, não fará qualquer diferença.

Cigarros, de qualquer tipo, simplesmente nunca tolerei. A fumaça, o cheiro que impregna no corpo, no cabelo, sim, tinha vasta cabeleira quando jovem, então, se fumava ao lado, parecia que tinha fumado junto, um horror. Naquele ambiente do movimento estudantil era normal fumar não apenas cigarros comuns, mas também maconha, com aquele cheiro peculiar, que também detestava, ou seja, estava fora dos buchichos. Lembro que tempos depois, quando trabalhava numa empresa japonesa, cigarros e bebidas eram símbolos de socialização, mais uma vez estava isolado, por um ou por outro, na maioria das vezes pelos dois (não) vícios.

Quase todas as pessoas que conheço amam ou “adoram” sorvetes ou chocolates, risos. O Chato aqui viveria sem, mesmo tomando sorvete ou comendo chocolate de vez em quando, não consigo lembrar de algum momento que me tenha feito qualquer falta. Entretanto, compro sempre para levar para casa, mas sem qualquer empolgação, até admiro quem os prova com tanto gosto, mas ainda não descobri estas maravilhas, desconfio que não aprenda mais. Comida, apenas o trivial, mesmo tendo prazer de cozinhar, fazer bons pratos, mas meu pãozinho francês e café com leite continuam imbatíveis.

Muitos anos depois, cansado de muito ler, resolvi escrever um blog e intervir em redes sociais, novamente o careta, ou melhor, o básico volta a aparecer, pois quem me ler sabe da imensa previsibilidade, nada será diferente, nem adianta pensar em “causar”, simplesmente não acontecerá. Aqui é tudo muito simples, errado, direto, sem “novidades, novas”, até o  marxismo é o tradicional, sem maneirismo, experimentações, variações ou combinações heterodoxas. É Marx e um pouco de Lênin, nada demais, arroubos, viagens na maionese, os textos surgem e se publica sem grandes expectativas, afinal quem quer saber de coerência, valores, categorias filosóficas e cartesianismo?

Daí se fecha um círculo, poderia levantar mais itens, mas fiquemos aqui, até eu cansei de minha chatice, demais para uma sexta-feira, né? É a crise dos 40 anos, pode ser quem sabe? Prefiro entender como um reconhecimento de limites e campos, defeitos adquiridos pela vida, sem muita vontade de mudar, o tempo passou, melhor conservar alguma coisa, que seja o conhecido.

Bem é isto, eis meu perfil, bem realista e sincero, afinal temos que ter coragem de rir de nós mesmo, né?