Crise 2.0: Novo Estado e o Capital

 

G20, reunidos no México, sem saídas - Foto: afp.com/Bertrand Langlois

“Estamos totalmente conscientes das grandes dificuldades que os portugueses e muitos europeus estão enfrentando, mas a verdade é que o caminho do ajuste deve continuar” (“Molão”, digo Durão Barroso, Presidente da UE)

 

A frase de Molão Barroso, político da Direita de Portugal, que ajudou a afundar seu país na época de “ouro” do Euro, tomando empréstimos a rodo, sem jamais se preocupar com o dia que chegasse a cobrança, parecia que o país era rico e tudo seria para sempre. Quem acompanha a série sobre a Crise 2.0, sabe como estes países foram vítimas da lógica de endividamento sem fim, a burguesia local se encheu de dinheiro, saindo pelo mundo a comprar empresas, Portugal e Espanha, usaram o Euro para crescer fora da Europa, com as privatizações da América Latina, África e Leste Europeu.

 

Agora, falidos, temos que ler as “lições” de Molão Barroso, um mero burocrata sem poder, que é seguidamente atropelado por quem realmente manda, Merkel e seus bancos alemães. Mas, não satisfeito, ele diz mais sobre a crise em Portugal: “Para Portugal voltar a crescer é preciso confiança, e a confiança só vai voltar se Portugal atravessar o difícil caminho da consolidação fiscal e reformas estruturais“, e o recado, segundo a Agência Dow Jones se estende a toda zona do Euro: “Barroso disse ainda que mesmo os países que não enfrentam problemas fiscais mais graves entendem a necessidade de fazer ajustes e citou o plano orçamentário da França para 2013, que é “extremamente rigoroso e exigente”.

 

Estamos inciando uma série de artigos tentando entender as proposições de saídas para crise, principalmente qual estrutura de Estado, se propõe. O artigo balizador Crise 2.0: O Novo Estado, que fundamenta minhas conclusões breves, sobre o “Novo” Estado, e abre o debate sobre como os agentes vão traçando seus planos e estrategias diante da crise. Do lado do grande capital, exploramos as principais políticas gestadas rumo ao novo estado, que apresentei, no artigo citado, assim resumidas:

“Umas das conclusões centrais, a que cheguei, foi a mutação do Estado, parte delas foi um insigth conjunto com Sergio Rauber, no limite identificamos que os elementos desta mutação, no leste veio com a Perestroika, que varreu os regimes daquelas formações políticas. Entretanto, os eventos da Crise de 2005/2007, com a queda do muro de Wall Street, o novo “Estado” se impõe aos EUA e UE. A América Latina, já havia passado por este ajuste nos anos 80/90.

Os vetores visíveis deste “Novo” Estado, boa parte dele gestado pelo neoliberalismo, são: o fim do conceito do Estado de Bem estar social, ou sua redução ao mínimo possível. Segundo, a ampla privatização, com o fim da intervenção direta do Estado na Economia. Terceiro a  Educação, Cultura e Saúde perde cada vez mais seu caráter de obrigação pública e gratuita, passam a ser geridos por entes privados. O que sobrou ao novo estado é gerir as forças repressivas, aplicação de leis restritivas, quebra de direitos fundamentais, naquilo que estamos chamando de Estado Gotham City”.

 

Trabalho com um conceito de que há dois movimentos combinados de crises: As cíclicas, dentro de um ciclo longo e as Depressões, que finaliza/inicia ciclos longo. Identifico, como ciclo longo, aqueles em que o Capital, mesmo com crise cíclicas, não se expõe a perda de poder, que tem, entre eles, uma grande Crise/Depressão, com durações mais ou menos identificadas historicamente, assim temos: Primeiro Ciclo – 1789 a 1871 , Depressão – 1871 a 1893. Segundo ciclo, 1893 a 1929, Depressão 1929 a 1939, Guerra. Terceiro Ciclo 1939 a 1974, Depressão 1974 a 1982. Quarto Ciclo 1982 a 2007, Depressão 2007 … No meio destes ciclos as crises cíclicas não abalavam de forma suficientes o poder do Capital.

 

No período de depressão é que surge um novo modelo de acumulação, de rearranjo que dará mais tempo ao Capital de consolidação e poder, nomeadamente entre 1871 e 1893, houve um processo de monopolização da Economia, rumo ao modelo imperialista, regional, do ciclo seguinte. Com o pós-guerra houve uma conformação de um estado imperialista, de caráter global, mas marcado pela contradição vinda com as Ex-URSS. A reconstrução da Europa com o Plano Marshall e a consolidação do Estado de Bem Estar Social.

 

A Depressão de 1974 a 1982, veio do esgotamento do modelo de Estado, que tinha presença na Economia, regulando e intervindo, que favoreceu enormemente o Capital, cresceu, expandiu e mundializou os mercados. A crise longa, de um mundo conectado, durou até 1982, com a ascensão de Reagan/Volcker ao poder, ali se definiu o novo modelo de estado, que liberou forças extremas para um novo ciclo. Paralelo ao que acontecia nos Eua e Europa, a Ex-URSS e a América Latina, fizeram seus ajustes, dos mais dolorosos, com o fim do Estado centralizado, dirigido com mão de ferro, tanto à direita quanto à Esquerda.

 

O longo período que vai de 1982 a 2005, com um modelo de estado, com menor intervenção do estado, o poder das agências em detrimento do poder eleito, houve o esvaziamento da regulação, o  que deu às corporações amplos poderes, de ir e vir, que hoje denominamos de globalização. Esta ampla liberdade do Capital, combinada com governos locais sem poder efetivo, ou limitado à funções de segurança externa(EUA) ou de distúrbios internos, com a diminuição da proteção social ( Saúde, Educação e Previdência), a aparência é de ausência do Estado, ou de governos, muitas vezes confundidos como executivos de corporações.

 

O advento da crise, de alguma forma, reposicionou o Estado, os antigos mecanismos de controle, principalmente os econômicos foram invocados para salvar o capital, as imensas injeções de capital nos sistemas financeiros dos Eua e da Europa, bem como das corporações, veio acompanhado de mais exigências de sacrifícios dos trabalhadores e do povo. A queima de capital, condição fundamental para um novo ciclo, por mais intensa que tenha sido, por exemplo, nos EUA houve uma queda de 40% na renda das famílias, 25 % nos salários e crescimento do desemprego de 4,9% para 9,2%, ainda não foi suficiente para retomada.

 

O caso da UE é ainda mais complexo, pois a antiga estrutura do Esta
do de Bem Estar Social, não fora desmontada, o desemprego explodiu nos últimos 4 anos, países inteiros faliram, como Irlanda, Portugal, Grécia e Espanha, outros estão mal economicamente, como Itália, França e Inglaterra. Os ataques aos trabalhadores e ao povo continuar a crescer, as palavras de Molão Barroso é o reflexo desta disposição do grande Capital, na busca de um novo estado. As saídas, com fórmulas dos anos 80, não parece ser suficientes, pois a crise permanece forte, o Estado é o ponto central para uma nova saída.

 

Do ponto de vista dos principais centros econômicos mundiais, EUA, UE e Japão, o que se gesta de saída é aprofundar o definhamento do Estado, com a imposição de medidas cada vez mais fortes, de arrocho econômico, de cortes sociais, abandono à exclusão direta milhões de pessoas, uma descida à barbárie. A não aceitação, protestos, têm sido reprimidos de forma violenta, tanto pela ação estatal, como para-estatal( caso Grego) das milícias neonazistas( ver matéria do El País:  Neonazistas assumem trabalho da Polícia na Grécia ).

 

A combinação de semi-Estado, parece, ser a “solução” engendrada, terá sucesso?

6 thoughts on “Crise 2.0: Novo Estado e o Capital”

  1. Ansiosa pela série. Quero muito ver o Hollande detonar o bem-estar social francês. Aliás, nem o Cameron vai conseguir fazer isso na ilha. Mas vamos acompanhar.

    1. Aliás, voltando: é que o bem-estar social na Europa é muito profundo, Arnobio. Um amigo sueco contou nos anos 80 que lá tinha, por exemplo, licença-paternidade de 6 meses. Eles têm “gordura” pra cortar no social.

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