Crise 2.0: A Ressaca Britânica

 

 

“Aquele que sobreviver esse dia e chegar a velhice, a cada ano, na véspera desta festa, convidará os amigos e lhes dirá: “Amanhã é dia de São Crispim”. E então, arregaçando as mangas, ao mostrar-lhes as cicatrizes, dirá: “Recebi estas feridas no dia de São Crispim.” A vida do rei Henrique V, ato IV, cena III -Shakespeare).

 

 

O pós-reunião da sexta começa a moldar uma nova Europa. Primeiro, é importante ler o que significa a ação de ruptura do Reino Unido ao novo tratado. Cameron se pôs fora do Bloco Europeu, o que aparentemente complica  para os dois lados as saídas comuns para EU da Crise 2.0

 

 

A ruptura, visão do lado UE


David Cameron voltará hoje ao Parlamento do Reino Unido saudado por muitos como herói, por outros como um tolo. A sua atuação na cúpula do Bloco Europeu em que rejeitou a união fiscal é vista como uma verdadeira defesa dos valores ingleses, mas a situação é bem mais complexa, tanto para lado britânico como pra o lado da UE.

A ruptura que ele provocou pode ser um caminho sem volta para Inglaterra e complementa a atuação do país desde o advento do Euro. Apesar de não ser inédito o ato de Cameron, o momento agora é mais crítico, não tem uma solução de continuidade. Quando a Inglaterra não aderiu ao Euro, pôde continuar como membro do Bloco Europeu, mas agora a corda se fecha no pescoço.

O acirramento da situação por Cameron uniu direita e esquerda na condenação do gesto de rompimento. Algumas opiniões colhidas por Jamil Chade, no Estadão de ontem:

 

1)      “Foi um erro deixar que os britânicos entrassem na UE”, disse Alexander Graf Lambsdorff, líder do partido de centro-direita FDP. Para ele, não haverá alternative senão repensar a relação entre UE e Londres.

2)     No Parlamento Europeu, as reações foram de indignação em relação a Cameron. ” Ele foi covarde”, declarou o deputado Daniel Cohn-Bendit, líder do Partido Verde no Parlamento.

3)      “Se Cameron não está preparado para jogar de acordo com as regras, então é melhor que cale a boca”, disse o deputado democrata-cristão alemão Elmar Brok.

4)     Angela Merkel, na sexta-feira, tentou colocar panos quentes na crise, alegando que Cameron deixou claro que era parte do bloco e que estava interessado em continuar na UE. Mas, para Nicolas Sarkozy, presidente francês, o momento foi de desmascarar o Reino Unido, considerado como um aliado mais próximo de Washington que de Bruxelas.

 

 

 

“Herói”?

 


 

Os jornais populares ingleses saudaram-no como Herói : “O dia que ele colocou o Reino Unido em primeiro”, era a manchete do jornal Daily Mail, com a foto de Cameron. O tabloide The Sun vestiu Cameron com um uniforme militar de Winston Churchill.

Porém a mídia mais tradicional e analítica foi noutra direção os Jornais Financial Times e o The Guardian e a revista The Economist fizeram ainda duros ataques contra Cameron, alertando que a City de Londres – centro financeiro da capital inglesa – poderá agora perder espaço para Paris e Frankfurt. “Não está claro para mim se o primeiro-ministro ganhou algo com isso (o veto)”, concluiu Lionel Barber, editor do Financial Times, em entrevista à rede BBC.

Mesmo entre os políticos ingleses também não houve consenso sobre a validade da medida tomada por Cameron um ex-MinistroMichael Heseltine, não há como Cameron defender os interesses britânicos “saindo a navegar pelo Atlântico”. O partido que forma a coalizão no governo, os liberal-democratas, também teme a criação de uma Europa a duas velocidades, e com Londres ficando de fora das decisões.

 

As vozes se levantam no parlamento contra a tomada de posição, mesmo uma maioria conservadora tratando o ato como heróico, há uma imensa preocupação que hoje o Finacial Time vocaliza através do Vice-Premiê Nick Clegg, “Eu ouço essa conversa sobre” espírito bulldog “, disse Clegg. “Não há nada sobre a Grã-Bretanha bulldog pairando em algum lugar no meio do Atlântico, não estando alto na Europa, não sendo levado a sério em Washington.” Adverte que Cameron deveria falar hoje ao parlamento como creconstruirá as pontes com UE não de atos “heróicos”.

Nick Clegg, se distanciou do primeiro-ministro e admitiu sua decepção com o resultado da cúpula. “Estou amargamente decepcionado com o final da cúpula na última semana, precisamente porque penso que agora existe um risco de que, com o passar do tempo, o Reino Unido fique isolado e marginalizado dentro da UE”.

Mais um ato de uma tragédia shakespeariana…

 

 

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