Crise 2.0: Fim da Democracia?

 

 

Choque no centro de Atenas

Democracia é uma mera tática?

 

Nesta série da Crise 2.0 temos visto que as saídas gestadas pelo grande capital, em regra, sempre prejudicam a maioria das pessoas, fomentando mais desemprego e desagregação social, porém, o lado mais nefasto e visível é quebra da ordem institucional de países democráticos.

Desde 2008 até novembro de 2011, nada menos que 11 governos locais na Europa caíram, em alguns sem convocação de eleições, que em tese legitimam os “novos” governos. O risco para a “suspensão” da democracia é uma ameaça real a estas nações. Claro que tem sido didático para os mais desavisados, de que a Democracia é uma mera tática para o grande capital. Não custa lembra que FHC defende aqui no Brasil “Democracia sem povão”.

Nem preciso recorrer aos vastos exemplos históricos do Nazismo e fascismo para entendermos que quando convêm, os regimes democráticos são perfeitamente substituídos pela simples vontade dos grandes bancos e empresas. Agora ficou mais evidente nos casos de Grécia e Itália. Ambas nações receberam ordens diretas de Berlim e Paris para rápida substituição de seus governos locais.

Mesmo detestando o bufão Berluscone, reconheço que ele foi eleito e passou pelo processo democrático, carcomido ou não, enquanto que o burocrata Mario Monti é apenas uma imposição direta dos interesses dos bancos franceses e alemães que querem garantia de que ele fará as reformas necessárias que liberará recursos do estado para o pagamento dos títulos público italianos. Não é a toa que já no primeiro discurso público o “Super” Mário, sinalizou que é preciso reformar a previdência da Itália, diminuindo o valor das pensões  e aumentando o tempo de contribuição.

“Os governos europeus estão tratando o problema da dívida da Itália como resultado de uma cultura política disfuncional. O coro de Bruxelas e Frankfurt é o de que são necessários tecnocratas frios, armados com dinheiro e conselhos dos outros países da zona do euro, para introduzir reformas consideradas essenciais num sistema econômico tacanho.” (Dow Jones – via Estadão)

O caso grego foi mais escandaloso, a simples ameaça de que o povo faria um plebiscito para saber se o acordo da dívida era bom para o país e se deveria permanecer na Zona do Euro, o ex-premier foi defenestrado do poder, ainda sendo humilhado publicamente por Sarkozy e Merkel, que o deixaram esperando por duas horas, numa sala de reunião. Depois voltou para Grécia com as ordens de que esquecesse plebiscito, saísse do governo e apontasse um burocrata para assumir a pasta, ou a Grécia seria expulsa da Zona do Euro. Tudo prontamente atendido em 48 horas. Sem eleições, sem debate democrático com a destroçada sociedade grega.

“Embora pesquisas de opinião mostrem que o governo recém-formado por Papademos tem amplo apoio popular, muitos gregos estão exaustos com as medidas de austeridade adotadas nos últimos dois anos.” (via Estadão)

Merkel e Sarkozy agem com uma desenvolvutura de verdadeiros CEOs de grandes corporações, dirigindo suas empresas de forma autocrática e impondo aos seus sócios menores acordos cada vez mais aviltantes, apenas olhando a saúde de seus bancos locais. “Merkozy”, quem sabe no futuro não virem diretamente executivos destas empresas privadas, como o ex-premier alemão Gerhard Schroder que virou executivo da Gazprom.

 

Sem Plebiscito na Inglaterra, ordens alemãs!

 

Mas a grande e embaraçosa notícia vem da Inglaterra, e dão conta que :

“A Alemanha elaborou planos secretos para tentar impedir um referendo britânico sobre a reforma da União Europeia, que poderia inviabilizar o pacote de resgate da zona do euro, revelam documentos vazados obtidos pelo jornal britânico The Daily Telegraph.(via Estadão)

No melhor estilo Wikileaks, continua a matéria:

“O memorando que vazou, escrito pelo Ministério do Exterior alemão, também revela planos radicais para a criação de um corpo intrusivo europeu, que seria capaz de assumir as economias com problemas de países da zona do euro.

O texto mostra ainda planos alemães para evitar que outros países do bloco, que são grandes demais para serem socorridos, dêem calotes nas suas dívidas. O “Daily Telegraph” diz que os planos da maior economia da Europa para lidar com a crise podem levar ao temor de uma erosão na soberania dos países, com a criação de um “superestado”.

 

Repisando o que escrevera como especulação coisa de um mês atrás:

“Ora, sejamos claros esta integração já não pode mais ser dada através dos velhos marcos da Zona do Euro, ela vai exigir uma unificação política, governo comum, centralidade nas ações, o “Estados Unidos Europeu” saído à fórceps, sem meias verdades.

Esta “nova” conformação encabeçada por alemães e franceses como sócios majoritários, uma espécie de São Paulo/Rio de Janeiro, enquanto que Grécia seria uma espécie de Piauí. Um pacto federativo do tipo brasileiro é mais complexo, uma federação como os EUA é o mais provável.” ( ver post Crise 2.0: Estados Unidos da Europa )

Diante deste vazamento e de como têm agido Alemanha e França, o desfecho da Crise na Europa pode tomar conotações muita mais dramáticas, de uma profunda ruptura política e social.

 

 

0 thoughts on “Crise 2.0: Fim da Democracia?”

  1. Esse modelo Parlamentarista está embutido em nossa Constituição e tentaram empurrar goela abaixo nos tempos Tucanos e torna o cidadão subalterno em eleger seus representantes e quando à queda de um modelo se faz necessária assumem os amigos do rei e numa terra de oposição adesista imagina o que poderia ocorrer. O povo não está cheio da Democracia e sim dos que a usam em benefício próprio.

  2. Ótimo artigo, como sempre!
    Democracia só funciona para os capitalistas… O restante da população perde voz (se é que um dia teve), e sua única arma (o voto) é invalidada quando os interesses envolvem grandes montantes…

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