Obama e suas guerras

Tenho pensado muito sobre Obama, quase um ano de sua esmagadora vitória, o que mudou, qual significado dele para os EUA e para o mundo. Formular algo sobre alguém tão distante e localizar este alguém no nosso imaginário é uma atitude complexa, mas tentarei enfrentar.

Um Link com Roosevelt

A primeira coisa quando lembro de Obama na presidência é de outro grande presidente americano,talvez o maior e mais singular deles, Franklin Delano Roosevelt. Herdeiro de uma catástrofe econômica de 29, assume a presidência em 32 vencendo a máquina partidária e com um programa de amplas reformas, rompe com o liberalismo predominante e implementa fundamentalmente um programa keynesiano clássico, de intervenção estatal pesada. O New Deal foi centrado nos seguintes itens centrais:

  • controle sobre bancos e instituições financeiras;
  • construção de obras de infra-estrutura para a geração de empregos e aumento do mercado consumidor;
  • concessão de subsídios e crédito agrícola a pequenos produtores familiares;
  • criação de Previdência Social, que estipulou um salário mínimo, além de garantias a idosos, desempregados e inválidos;
  • controle da corrupção no governo;
  • incentivo à criação de sindicatos para aumentar o poder de negociação dos trabalhadores e facilitar a defesa dos novos direitos instituídos.

Roosevelt, apesar de vir do seio da burguesia americana, seu Theodore havia sido Presidente em 1908, foi sempre taxado de comunista, esquerdista e enfrentou uma oposição terrível do início ao fim de seu mandato, tudo em sua vida era motivo de exploração nos jornais. Espertamente ele resolveu fazer comunicação direta com o povo através do rádio, falando em cadeia de rádio sem intermediário e assim rompeu o cerco que a mídia(jornais) tentaram lhe impor, para quem tiver curiosidade sobre esta época ler “Anos Dourados” (Gore Vidal), romance que localiza bem a luta política enfrentada.

Obama

Coincidência ou não mas o motor da chegada de Obama a Casa Branca foi o desastre Bush Jr, sem isto, ouso afirmar, jamais um negro, com família com vínculos ao islã, lá chegaria. Sua ascensão é algo extraordinário, inimaginável há 10 anos, quem de nós conseguiria vislumbrar algo tão luminar?

Assume a presidência naquela que é considerada a segunda maior grande depressão da história do capitalismo, o país mergulhado num atoleiro no Iraque e Afeganistão, com pouquíssimo espaço de manobra, uma herança mais do que MALDITA, sob desconfiança da elite reacionária, que aceitou a derrota na batalha, mas prolonga a guerra via mídia. Neste contexto dentro do próprio partido Democrata, Obama tem poucos aliados confiáveis, é obrigado a montar um ministério de composição com as alas conservadoras e ainda manter um presidente do FED comprometido ainda com o Neoliberalismo.

Estive nos EUA em janeiro de 2009 e fiquei impressionado com a crise que lá campeia, falência das famílias representadas nas placas de vendas por leilão de casas por hipoteca. Lojas e departamentos em que nós estrangeiros éramos tratados como “reis”, poucos americanos comprando, ou quando compravam apenas o essencial. Várias empresas do setor automotivo indo à bancarrota, notícias de desemprego em massa.

Este fatores combinados, recessão violenta, desemprego, sensação de decadência duas guerras no front, uma mídia hostil, deixam pouco, ou quase nada, espaço de manobra para Obama se movimentar. Para nós que estamos de fora apontar o dedo de por que ele continua as guerras é fácil, por que não enfrenta os lobbies armamentitas, grupos poderosos,etc. Sua própria chanceler Hilary Clinton sabota-lhe  o trabalho, negociou com os golpistas hondurenhos, por exemplo, mas são as concessões inevitáveis de Governo novo no meio do caos. Aqui não quero justificar os erros de conduta de Obama, mas tentar explicar os fatos com isenção.

A grande aposta, talvez um pouco do que aqui Lula também fez no primeiro ano com o Fome Zero, ele tenta a reforma da Saúde, que é a maior fratura exposta da decadência do modo de vida americano, em particular dos mais pobres, e isto é GUERRA, pior do que as externas, enfrentamento que divide a sociedade americana, a mídia age como abutres tentando isolar Obama, massacrando-o em seus programas, muitos abertamente facistas.

O futuro

Continuo depositando esperança em Obama, a sua vitória, o seu significado especial, a quebra de paradigmas são coisas mais importante do que a gestão em si, claro que ele tem de fazer concessões aos conservadores, só em se sustentar no cargo já é um desafio. Espero que ele no segundo, terceiro ano possa se firmar e ter em suas mãos seu governo efetivamente, pois hoje elas estão atadas. A mudança de perspectiva das relações no mundo são melhores com ele, mesmo que pouco tenha feito, mas em si já são diferentes.

Penso que nós que temos compromisso com a mudança social, não nos tornemos algozes e coveiros de Obama, não precisamos compactuar com seus erros, mas também não nos misturarmos com as críticas grosseiras aqui vociferadas por Mirians, Merval, Sardenbeg e outros.

Sinto que é incompleto mas é até onde consigo chegar na reflexão, espero que quem leia possa livremente completar a idéia aqui expressa

0 thoughts on “Obama e suas guerras”

  1. Acho realmente que o cara assumiu as rédeas de uma carruagem à beira de um precipício, cheia de nitroglicerina, com 24 cavalos brancos desembestados, enlouquecidos e que apanharam muito, e mesmo que ele puxasse as rédeas com todas as forças elas partiriam antes de surtirem algum efeito. O país, o povo, a elite e a indústria são belicistas, ele jamais interromperia os conflitos ou o envio de tropas. As vezes quando vejo as notícias e constato que ele ainda está vivo acho que ele conseguiu mais do que eu achei que seria possível, pois, como Bowie, tenho muito medo dos americanos! Para ver uma previsão bem humorada, feita 35 antes, sobre a situação do Obama, assistam Banzé no Oeste (Blazing Saddles) do Mel Brooks de 75. É sobre um cidade do velho oeste desesperada, e o único xerife capaz de impor a paz no vilarejo. O problema é que pra desgraça de todos ele é negro!

  2. Oi Arno,

    Eu disse que ia ler ainda hoje e aqui está minha parca contribuição.

    Bom, achei o seu texto amplo e com boa análise, sim. Obama é um ‘herói’ mantendo-se no cargo, e vivo.

    Ele tentou cortar as guerras sob domínio americano, mas certamente o lobby bélico americano – nada diferente do que acontece no resto do mundo – não permitiu.

    A questão da saúde, que ele está enfrentando enorme resistência é muito diferente do Fome Zero. Se aprovar, não será nada daquilo que previam ele e o povo americano. A seguridade em saúde americana sairá muito do bolso da elite, ao contrário do Fome Zero em que, queiram ou não, a elite brasileira também se beneficia, direta ou indiretamente; e a economia roda. Lá, a saúde é um problemão dos grandes como está. Mais ainda se for aprovado o ObamaCare, que ele quer.

    Aproveitando: qual a relação que você faz do período Roosevelt com os mandatos de Lula?

  3. Prezado Arnobio.

    Muito bom o texto.
    O poder do capital é tão magno, que deve haver uma Cartilha àqueles que ocupam a cadeira da presidência. Mais ou menos assim: isso o Sr pode, isso aqui, depois trataremos.
    Aconteceu com Lula e com Obama. Ninguém pode com os grupos enraizados nas estruturas de poder. Concedem pequenas aberturas, e mesmo assim sabemos a qual custo.
    Como fala um amigo: só com uma revolução e um grande paredão.

  4. Arno,

    Achei o post ótimo e suas reflexões um tanto surpreendentes, sobretudo por irem na contra-mão da decepção com Obama, que me parece crescente (e a qual eu, até o momento, parcialmente compartilho).

    De fato, você lembrou muito bem: os longos dois anos iniciais do governo Lula foram muito ruins, um tanto pela herança maldita, um tanto pela hiperexploração midiática do dito mensalão.

    Também estive nos EUA em plena crise (morava lá quando ela começou – e foi surpreendente e assustador ver grandes empresas falindo e muitos perdendo suas casas). Parece um outro país, uma pálida imagem da potência indubitável que foi um dia.

    O ponto nodal da questão, para mim, é que embora devamos ter uma certa leniência e paciência com o goveno Obama, o argumento de que ele está sitiado pela direita não pode servir de álibi para toda e qualquer medida regressiva ou autoritária que ele venha a tomar. Do contrário, torna-se, na prática, indistinto ter um democrata de ideias avançadas na Presidência – além de arranhar a simbologia de um negro de ascendência muçulmana ter conseguido ser eleito para o cargo.

  5. Quando este Sr fala: “A lógica do mercado capturou muitos gestores públicos levando a uma falsa visão de que o que é público é ruim, de péssima qualidade, criando uma baixa auto-estima terrível e uma condição de debate político e ideológico extremamente desfavorável.”
    Quero crer que ele quer dizer que o serviço publico neste pais é de boa qualidade. No
    mínimo deve usar o SUS e não um plano de saúde, e se tiver filhos, estes devem estudar
    em escolas publicas. Acho que ele pensa que somos todos idiotas. Ou então ele vive em
    outro pais.

  6. Acho interessante este Sr comparar os dois eventos, acho uma coisa não tem
    nada haver com a outra.
    O comunismo foi uma idéia malfada que não deu certo em canto nenhum do
    planeta, por isso caiu e nunca mais se levantou.
    Quanto a recente crise econômica, já houveram outras e o capitalismo sempre se
    levantou, porque ainda não inventaram coisa melhor. Não se engane, em pouco
    tempo as economias vão voltar a crescer e gerar riquezas

  7. A queda do muro de Berlim
    A queda do muro de Wall Street

    Acho interessante este Sr comparar os dois eventos, acho uma coisa não tem
    nada haver com a outra.
    O comunismo foi uma idéia malfada que não deu certo em canto nenhum do
    planeta, por isso caiu e nunca mais se levantou.
    Quanto a recente crise econômica, já houveram outras e o capitalismo sempre se
    levantou, porque ainda não inventaram coisa melhor. Não se engane, em pouco
    tempo as economias vão voltar a crescer e gerar riquezas.

  8. Noto também que este Sr é contra as privatizações.
    Acho que ele era um dos privilegiados que tinham um telefone em casa
    quando o telefone era de domínio estatal.
    Foi preciso um homem de coragem tipo o FHC para privatizar a área de
    Telecomunicações num pais esquerdista até a alma.
    O mesmo aconteceu com a nossa auto-suficiência em petróleo, quando em
    1978 o FHC mandou uma Lei para o congresso quebrando o monopólio
    Estatal de prospecção de petróleo, como com os telefones, foi preciso a
    Iniciativa privada entrar no jogo, para o Brasil deixar de importar petróleo
    e se tornar auto-suficiente.

  9. Noto também que este Sr é contra as privatizações.
    Acho que ele era um dos privilegiados que tinham um telefone em casa
    quando o telefone era de domínio estatal.
    Foi preciso um homem de coragem tipo o FHC para privatizar a área de
    Telecomunicações num pais esquerdista até a alma.
    O mesmo aconteceu com a nossa auto-suficiência em petróleo, quando em
    1997 o FHC mandou uma Lei para o congresso quebrando o monopólio
    Estatal de prospecção de petróleo, como com os telefones, foi preciso a
    Iniciativa privada entrar no jogo, para o Brasil deixar de importar petróleo
    e se tornar auto-suficiente.

  10. Caro sr. Ubaldo, creio que todos já perceberam sua posição conservadora, quanto aos seus textos qualquer coleção mofada de revista (in)Veja trataria do assunto de forma mais articulada. Se quiser abrir um blog para isso, sinta-se livre. Mas acho que cinco posts seguidos espumando veneno reacionário é um pouco de mais, você não acha?

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