As rezas, cantorias e estórias de matutos.


Cenas de farinhada, boas lembranças de criança.

E pelas andanças da vida, cada um de nós vai recolhendo histórias/estórias, causos, anedotas, que servem como desafogo para dar sentido ao que se vive. E, muitas vezes, como perspectiva ou abrir caminhos que nos tire de nossas mediocridades, da crueza da realidade, em síntese preencher o vazio existencial, tendo como espelho essa versões de vidas alheias, paradigmas para as nossas.

O passo seguinte, depois do que absorvemos, é contar para outros, partilhar, levar adiante o conhecimento adquirido, uma forma generosa de que mais gente conheça, aprenda, apreenda, algo que nos fez bem. Isso é feito, na maior parte das vezes, pela oralidade, a tradição de passar de boca em boca, que é o costume comum, Escrever essas histórias é um bom exercício de memória e também de guardar com mais precisão, fatos narrados.

Pelos dois lados da minha família, meus avôs, materno e paterno, eram ótimos contadores de estórias, além de sempre terem em suas casas a presença de amigos contadores de causos, cantadores, poetas do sertão com aquelas histórias fantásticas. Fui formado por essas narrativas, do imaginário popular, da tradição oral herdada dos portugueses, a estórias contando sobre mundos da Europa medieval, com o rude português por aquelas pessoas que nunca saíram nem da nossa pequena cidade, no interior do Ceará, mas trazem a universalidade da inconsciente coletivo.

As estórias com reis, rainhas e princesas, dos castelos e dos símbolos cristãos, das festas religiosas e de suas novenas para as nossas senhoras, ao menino jesus. Os pedidos de milagres e das graças alcançadas, também havia espaço para as benzedeiras (rezadeiras) que tiravam “quebranto” e curavam as doenças dos meninos e das meninas, quase um paganismo ou uma aceitação de outras religiões, especialmente, as de origem africanas, tão ricas em curas, cultos e mistérios.

É tão íntimo lembrar das descascadoras de mandioca e dos homens fazendo a farinha, entre cantos, rezas, tão próprios nas noites e dias de farinhada. Que se seguia pelas noites de causos e cantorias no alpendre, sob à luz de lampiões, o cheiro de rapé e fumo, que de tão forte ainda sinto no ar aquelas fragrâncias. Deitado na rede ou no tucum, o medo congelava, ninguém saía naquelas matas escuras, e, segundo algumas estórias, em que viviam suçuaranas, panteras e raposas.

Dos perigos contados, havia também o medo dos russos, os vermelhos, que ofendiam a cruz, eram como os mouros das cruzadas. Os russos iam invadir o Brasil, acabar com as igrejas, deus nos livre desse mal. Uma vez meu pai disse que íamos para Nova Russas, quase não dormi com medo de que eles nos levassem, sabe lá para onde.

Tempo, tempo.

 

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