Arnobio Rocha Reflexões O Tempo Passou…O Universo Não Coube em Mim.

O Tempo Passou…O Universo Não Coube em Mim.


“Romanas imploram a Coriolano”. 1652-3. Por Nicolas Poussin

“Como o fora a princípio, ó sacra Onipotência,
teu sol é hoje ainda enigma, assombro, encanto”
(Fausto – Goethe)

É bem certo que o tempo que me resta será menor do que o tempo já vivido, como também é inexorável que no tempo porvir, a saúde será mais debilitada do que da outra parte da vida. Tempo, espaço e expectativas são frutos de nossa consciência e podem nos ajudar a melhorar ou nos enterrar de vez no cinismo comum que assola a humanidade em todos os tempos.

É preciso compreender as reflexões do Dr Fausto, a de que o homem que atinge a maturidade intelectual, o conhecimento das ciências, no mesmo instante que sabe que lhe faltará tempo e vitalidade para viver o que  finalmente conhece e nem aproveitará plenamente, quase como um castigo, uma contradição tão própria de nossa existência humana.

São compreensões que nos levam, de certa forma, a um vazio existencial, falta-nos força para se insurgir contra algo que nos aflige e nos aprisiona. Por outro lado, pode ser uma chance de nos despir de toda espécie de vaidade e de certezas. Esquecer os arroubos de heroísmos juvenis, ou de impor nossas verdades, ideias aos demais, moldar a quem nos rodeia.

Passado o “nosso” tempo, viveremos das observações mais apuradas, detidas, uma preocupação com alguma coerência e consciência de nosso papel. Mais uma vez recordo de Júlio César desesperado de que estava com 28 anos e nessa idade, Alexandre conquistara o mundo, ele, apenas a Gália, como relata Plutarco, nas vidas comparadas, verdade ou não, é crível.

As referências literárias são formas de reafirmações de nossos próprios medos, que já foram vividos e partilhados por figuras infinitamente maiores, porém com as mesmas angústias que nós, simples mortais. Aliás, começamos a criar identidades, não com os maiores, sim com os que nos parecem mais próximos ou que tenham valores, teimosias como as nossas.

Nesse sentido, penso de minha proximidade com Coriolano, com suas marcas de guerra, menores as minhas, mas o pensar, a resistência à sedução fácil do poder, a retidão, a teimosa e de certo modo, inflexível, que o impediram de ser político, tudo toma conta do meu espírito.

A completa despreocupação sobre julgamentos sobre mim, o que pensam, de bem ou de mal, diz mais sobre si, o espírito de Coriolano, é quase um “foda-se”, o que é exatamente o que tenho feito sobre essas coisas, poucas vezes agia para agradar, agora, então, menos ainda.

O que pouco importa é saber se isso é bom ou ruim, apenas é. Assim, sigamos, rumo ao desconhecido, que será o próximo e um outro próximo dia, até o findar.

O resto é silêncio.

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