O Fim do Luto e a Brevidade do Tempo.

Letícia por ela mesma, como ela se via: linda, charmosa, generosa e encantadora.

“Deus me acuda! A arte é longa, a vida breve.” (Fausto – Goethe)

Hoje completa um mês da partida de Letícia para aquele campo indefinido, de onde não se tem notícias, exceto pelo ato de fé, que em várias crenças e religiões tentam nos confortar. Na celebração cristã, herdada da tradição judaica, é o fim do luto de 30 dias, pela morte de Moisés. Esse luto é para purgar pecados, culpas e as devidas reflexões sobre o que é a vida e seu ciclo complexo, na nossa brevidade, nosso limite ou metron, no sentido grego.

É que o FIM sempre nos assusta, no caso, a morte, é o último ato da vida e continua inescapável, que nem a Escatologia resolve ou dar paz aos que ainda estão em vida, pois a certeza da morte assusta e maltrata muito, senão a todos, mas a maioria se sente impotente e tomado pelo medo de morrer. Mas o que é o Fim? A finitude de cada um, ou de cada coisa?

Por que esta ideia, de fim, nos assombra desde os tempos mais remotos, em todo e qualquer época, povos, não importando o tempo ou lugar? A resposta mais simples, seria que jamais estamos preparados para aceitar que a vida tem um ciclo particular, de cada um, quando algo tão trágico como a ida de Letícia, nos deixa devastado, pela pouca idade, pelos sonhos, pelos ideais não concretizado plenamente (para nós) e pelo imenso vazio, em nós.

Sentado ao lado do lugar no sofá que ela ocupava como seu pequeno latifúndio, ouço a chuva da madrugada, o choro dos céus, não mais de tristeza, mas de saudades, essa que não passará jamais.. Muitos dizem, “mas já, um mês?”, para nós é: agora que completa um mês.

Retomar nossa rotina, as responsabilidades, pois a Sabesp, a Vivo, ou condomínio, como exemplos, não ligam para o luto de ninguém, religiosamente, elas mandam as contas com a mesma data para saldar.

É cruel, olhar os lugares, as coisas, cada memória, mas sentir que a vida segue, tudo em volta caminha, não podemos nos paralisar, ou virarmos estátuas de sal. Precisamos retomar as nossas atividades, nossos trabalhos, ainda com a mente turva, com olhos embaçados, pelas muitas lágrimas derramadas, impedem de ver mais à frente, mas devemos nos resignar para transformar luto em luta.

Nesse mar de desventuras, encontramos e recebemos apoio, carinho, colo, palavras e muitos abraços de tanta gente, que generosamente nos acolhem e nos dão energias para enfrentarmos o dia a dia. Agora é hora de pensar por onde recomeçar, refazer alguns caminhos, buscar algumas respostas sobre o que aconteceu, aliviar nossa dor, naquilo que for necessário, no trabalho ou na fé, nos levantar e renascer.

Agradecimentos eternos a todos os que se somaram a nós, na comemoração do ser especial, Letícia, que brilhou intensamente sua luz para todos os que a conheceram, tiveram o privilégio de conviver com ela. A poesia de Fernando Pessoa, como Ricardo Reis, explica a brevidade do tempo dela e nosso.

“As rosas amo dos jardins de Adônis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
Que em o dia em que nascem,
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o sol, e acabam
Antes que Apolo deixe
O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Que há noite antes e após
O pouco que duramos”.

Sigamos juntos, nosso muito obrigado. Mara, Luana e Arnobio.

admin

Nascido em Bela Cruz (Ceará- Brasil), moro em São Paulo (São Paulo - Brasil), Técnico em Telecomunicações e Advogado. Autor do Livro - Crise 2.0: A Taxa de Lucro Reloaded.

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