Solidariedade x Ultraliberalismo

A Esquerda e a Solidariedade perdida.
“Olho atrás, e procuro os companheiros:
Todos lassos e em dor me abandonaram,
Despenhando-se em terra ou sobre as chamas”.
(Eneida – Virgílio)

A questão que distinguia a Esquerda, até 1989, era a Solidariedade.  Pouco importava diferenças e divergências, até com os adversários nesse mesmo campo, um militante político de Esquerda tinha a obrigação moral e revolucionária de ser companheiro, camarada e solidário para com o outro.

Nas piores situações, como no cárcere, por exemplo, essa qualidade inata de qualquer homem de esquerda, despertava a admiração e o respeito de todos. O que se percebe, a olhos nus, é a ruptura com essa tradição, após a queda do Muro de Berlim, mostra que a derrota não foi apenas política e ideológica, mas fundamentalmente no aspecto humano, da formação humanista,  especial a que se traduzia em Solidariedade.

As várias correntes de Esquerda que, politicamente, definharam e ainda definham, nestes últimos 30 anos, com suas rupturas cada vez mais sem sentido, a autofagia selvagem, levou ao abandono deste princípio norteador de um revolucionário, para com seus camaradas e para com o povo. A insensibilidade com a miséria, com a fome, disfarçada como divergência, de tratar políticas públicas, apenas como paternalismo.

Pelo modo de vida imposto pelo Kapital e pela nova realidade ideológica, o abandono dos camaradas em situações precárias, ou o isolamento político daqueles que se afastam por divergências, afetam gravemente o militante. Estes movimentos são complementares, conscientes ou não, os agrupamentos políticos (alguns parecem seitas milenaristas) acabam por tornar a militância política num fardo pesado demais, principalmente nos momentos de embates e divergências.

Toda a tradição de embates e bons debates, mesmo que chegassem a grandes rupturas históricas, sempre aconteciam em cima de posições políticas ou ideológicas, com diferenças claras de táticas ou estratégias, jamais se davam com isolamento de pessoas, tornando o militante num “anônimo”, mas num contexto político maior.

Uma nova militância forjada nos escombros do Muro de Berlim, em particular esta última das redes sociais, são caracterizadas por relações extremamente frágeis, voláteis, “líquidas”, pouca dada a divergência e diferenças políticas, a vaidade pessoal se impõe à qualquer projeto maior (se existir).

Esta formação de uma militância ultraliberal que, apenas na aparência, lembra, vagamente, ser de Esquerda, mas que no fundo não há coerência ideológica nenhuma, nem mesmo de confronto com o Kapital, apenas nos aspectos secundários, numa busca de “Liberdade”, que na maioria das vezes é apenas egoísta, que de nada difere de grupos como o Tea Party, que também confronta o Estado Burguês, gritando por mais “Liberdade”.

Este individualismo, o isolamento atômico, como se tivéssemos respostas globais, leva a recusa ao debate ou a formação de organizações totalizantes, como os partidos, tornando presa fácil ao curso do Kapital, aliás, impulsiona-o, por não o combater em sua totalidade.

A superficialidade ilusória de como vão se somando os contatos (pois não passam de contatos) realmente não vai redundar em calor humano, ainda que muitos virem até em pegação e sexo. A contradição é que temos tudo muito próximo e imediato, mas parece que estamos cada dia mais longes e insensíveis a tudo que nos cerca. Há relação de “consumo-satisfação”, mas de pouca ou nenhuma afetividade e efetividade

O risco do fim do humanismo coincide exatamente na época em que estamos “mais próximos”, mas também mais distantes e isolados. Todas as razões plausíveis podem explicar, justificar cada ação ou omissão de cada um de nós: as inapeláveis desculpas de trânsito, distâncias, compromissos, atividades, tudo perfeito, alivia a “culpa”, mas martela (ou não) na consciência.

A conjuntura geral impede grandes ousadias (ou seria o contrário?), empurra para um terreno pantanoso, ambiente de raríssima solidariedade, em que predomina o “salve-se quem puder”. Como se cada um precise se salvar de alguma coisa maior, então nos fechamos, parece até natural. Impossível medir o desespero ou desassossego que nós passamos., até onde é egoísmo, até que ponto é “estado de necessidade”.

As relações humanas nunca estiveram tão no limite de ruptura, o amálgama da Revolução se partiu, pouco sobrou do que já fomos, tem como reconstruir?

“Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda A vida é sonho,
e os sonhos, sonhos são”.
(A Vida É Sonho, Pedro Calderón de La Barca)

admin

Nascido em Bela Cruz (Ceará- Brasil), moro em São Paulo (São Paulo - Brasil), Técnico em Telecomunicações e Advogado. Autor do Livro - Crise 2.0: A Taxa de Lucro Reloaded.

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