A Forma da Água

 

O Monstro que nos habita, não se mostra, mas pode ter aparência mais assustadora

Realmente não é fácil dormir depois de assistir ao grande filme, A Forma da Água (The Shape of Water). Bem, talvez o mundo não queira saber de sentimentalismo, principalmente não queira saber do “diferente”, dos excluídos, dos que têm qualquer tipo de singularidade, dentro da “normalidade” imposta socialmente.  Então não veja o filme, ou apenas veja para ser hipócrita por duas horas comovido pelo que viu.

A guerra fria produziu todo o tipo de paranoia, mas antes dela, o apartheid social americano ainda vigorava no começo dos anos de 1960, aos negros os papeis secundários e os lugares proibidos. Aos gays, a necessidade de se fazerem invisíveis, jamais se revelar em público. O Marcathismo da década anterior ainda perdurava no anticomunismo e o medo histérico dos Soviéticos.

A corrida armamentista se renovava na corrida para dominar o espaço, as missões tripuladas dos russos puseram os EUA em pânico. Um laboratório secreto prepara um singular futuro viajante espacial. Capturado na Amazônia, retratada como um mundo fantástico, de anomalias e petróleo, a criatura é torturada no treinamento para servir na missão espacial, por militares estúpidos e paranoicos, personificado de forma espetacular por Michael Shannon, o militar fascista, Richard Strickland.

Ai o inusitado acontece, o que nos remete ao outro filme de Guilhermo del Toro, O Labirinto do Fauno, o encontro da “coisa” com a sensível muda, Eliza (Sally Hawkins), a faxineira noturna do laboratório secreto, que tem seu vazio de vida preenchido pelas conversas e pelos sonhos do vizinho artista gay, Giles (Richard Jenkins, espetacular) que lhe apresenta a mágica da música e do cinema. Outra parte preenchida pela tagarela colega de trabalho, Zelda (Octavia Spencer), em mais uma grande atuação.

A delicada relação de vários personagens tratados à parte pela sociedade, negros, gay, muda, monstro, militar paranoico, conspiração e espiões soviéticos, num ambiente típico dos anos de 1960. É embalado por músicas espetaculares e pelo amor impossível. É uma viagem onírica, realidade fantástica, a água é o elemento natural, escorregadio,a fuga de um mundo doente, da realidade líquida e de tudo padronizado e definitivo.

A Coisa, a forma (Doug Jones), é um Deus, capturado no meio de gente sem cultura, mas com petróleo: “mas como pode ser um Deus, algo tão feio? Talvez, Deus, se pareça comigo, até com você (Zelda – que é negra), claro, que mais comigo (que sou branco)” como observa o celerado Strickland. O estanho, o diferente, não tem forma, mas pode ter amor, o mais improvável e impossível, mas amor.

A falta da voz se completa com os gestos e intenções, num sonho mágico, envolvida em grandes canções, a alma sai aliviada, pois, do trágico, se fez poesia.

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