o heroico time do Chapecoense antes do Jogo contra o San Lorenzo (Argentina)

o heroico time do Chapecoense antes do Jogo contra o San Lorenzo (Argentina)

A humanidade “deu ruim”…

Essa gíria carioca pegou em todos os lugares do Brasil e o seu singular significado de que algo não funcionou corretamente ou que não consegue acontecer. Precisamente é o sentimento de que fazemos determinadas coisas e elas acabam indo por água abaixo, por uma série de fatores externos à nossa vontade ou por nosso limite mesmo.

Este ano especialmente, por algumas vezes, repeti que a humanidade “deu ruim”, algo raro em mim, que mesmo circunstâncias tão adversas que vivo nos últimos seis anos, com a doença grave da minha filha mais velha, em nenhum momento caí em pessimismo ou descrente no ser humano. Consegui me manter firme, ou de pé, em todas as situações graves.

Entretanto, 2016, se revelou um ano cruel demais, a morte do meu amado, problemas familiares, isso no campo pessoal. Pior ainda, na vida social e política, tudo o que foi plantado de mal nos últimos tempos concorreu para o caos. Manifestações de ódios, impeachment cruel e indecente aprovado por um congresso dominado por famigerados interesses.

O retrocesso institucional inacreditável com um governo completamente ilegítimo, sustentando por uma mídia canalha jogou o país numa volta ao passando à galope, quase uma república de banana. Velhas oligarquias esfregando as mãos para dilapidar o patrimônio público e acabar com os mínimos direitos sociais que existiam sem reação alguma. Um sentimento de derrota incrível.

Ali, no grande irmão do Norte, a eleição de uma aberração, que jamais poderíamos imaginar de tão improvável e inconsequente. Aqui, mais próximo, na Colômbia, depois de décadas de guerra civil interna, um acordo de paz, foi bombardeado por uma onda fascista e demagógica num plebiscito que deveria celebrar a união nacional perdida. Tudo isso acabou reforçando o sentimento de algo grave não funcionou, só podia ser a Humanidade.

Para completar o quadro, o simpático time da pequena Chapecó, o São Caetano da vez, conseguiu um feito espetacular ao alcançar a final de um torneio sul-americano, uma proeza para ser cantada em prosas e versos. Desgraçadamente uma tragédia sem tamanho se abateu sobre a cidade com a queda do avião que levava a equipe para o primeiro jogo da final, em Medellín, Colômbia.

A morte de dezenove jogadores, outros três salvos, mas em estado grave, além da perda de vários jornalistas e dirigentes, comissão técnica da Chapecoense, criou um clima de comoção mundial. As mensagens de todos os lugares, os times locais unidos solidariamente, como raramente visto. Uma chama de esperança na humanidade se acendeu em mim.

Eis que ontem a noite, em Medellín, palco da tragédia, e de tantas outras no passado violento que dominou a bela cidade, o povo colombiano fez uma das coisas mais gratificantes que já vi na minha vida. O Atlético Nacional levou ao seu estádio mais de 40 mil torcedores e com certeza mais outros 40 mil do lado de fora para celebrar o adversário que não pode se fazer presente.

Este gesto magnífico me fez curar tantas feridas, aquelas pessoas cantada em homenagem ao Chapecoense, ao povo de Chapecó ao Brasil. Foi grandioso, de uma generosidade sem tamanho. Impensável, as lágrimas corriam pelo meu rosto e chorei copiosamente, um sentimento de nobreza do povo colombiano que jamais poderá ser esquecido.

Algo que vai muito além do futebol, serve para vida, para nossas mágoas e dores, pois fecha feridas e o coração arde de emoção.

Obrigado, Medellín, obrigado Atlético Nacional e obrigado ao nobre povo colombiano, nunca esquecerei o que vi ontem, nunca mesmo. Que lição.

Vale ver integralmente.