“Petista Bom, É Petista Morto”. Ou Quando o Mal nos Consumiu.

José Dutra, ex-presidente do PT, morto vítima do Câncer.
José Dutra, ex-presidente do PT, morto vítima do Câncer.

“Ai mísero, sobejo hás padecido!
E a mim que te privei de extremos filhos,
Buscas sozinho? Entranhas tens de ferro.
Senta-te; ao luto agora devemos tréguas.
Viver sempre em tristeza é lote humano:
Existir sem cuidados é dos deuses.” (Ilíada – Homero)

No décimo ano do cerco contra os muros de Tróia, Aquiles, o maior dos guerreiros grego se retira dos campos de batalhas, por divergências com Agamêmnon, o comandante-em-chefe da esquadra grega. Patroclo, primo-irmão de Aquiles, temendo pelo desastre da derrota que se aproximava, pede a Aquiles suas armas e vai à luta, sendo morto por Heitor, o maior herói troiano. Aquiles retoma à guerra para vingar seu grande amigo. Depois de cruenta luta, Aquiles mata Heitor.

A cena final da Ilíada é a volta dos maiores valores do Herói, o Rei Príamo, velho e doente vai ao acampamento grego, pedir pelo corpo de seu filho, Heitor, morto por Aquiles em combate singular, na luta entre os maiores heróis dos dois lados da guerra. A grandiosidade do diálogo entre os dois se constitui num momento único da literatura, do heroísmo e da natureza humana. Ali os dois homens se encontram, um velho e humilhado, se dobra aos joelhos, em gesto penitente, apela para honra do grande Herói, que Heitor era como Aquiles, portanto merecia as mesmas honras e homenagens depois de morto.

Velar os mortos e prestar suas homenagens era um valor sagrado no passado, que se tem ainda no presente. Ao findar a existência, aquele que deu o bom combate, tem o direito de ser reconhecido e encomendado para o outro plano, com o digno respeito que lhe convém. É absolutamente desrespeitoso e desumano qualquer tipo de embaraço ao morto e à sua família, não há qualquer traço de civilidade ou honra ao injuriar alguém que está morto e não pode mais defender sua honra, apenas os calhordas e os sórdidos atentam contra ele.

O que vimos em Belo Horizonte no dia de hoje, com alguns cães selvagens agredindo a honra de José Eduardo Dutra, ex-presidente do PT, que faleceu vítima de um câncer com apenas 58 anos, vai entrar para os anais da história como um dos dias mais tristes da democracia brasileira. Basta lembrar, que o mesmo José Dutra, em 2014, prestou homenagem pública ao ex-presidente do PSDB, Sergio Guerra que falecera, como ato de respeito e civilidade.

A mídia é patrocinadora direta desse tipo de ato, pois dá ampla divulgação a eles, libera os seus portais aos comentários mais chulos e tenebrosos, como se não houvesse vida e honra no morto. O desprezo e o ódio ao PT cegou completamente uma parte da população, que nesse terrível caminho, já chegou ao mais triste fascismo, o da alma, o do ódio velado.

Aquele que perde qualquer noção de civilidade apenas para atingir um “petista”, vivo ou morto, como dizia o panfleto e os cartazes jogados no velório de José Dutra: “Petista bom, é Petista morto”.

É essa mesma escumalha que outro dia atentou contra o ex-ministro Guido Mantega na porta de um hospital, quando acompanhava sua esposa, num tratamento de câncer, ou quando p agrediu num restaurante, durante um jantar (mediante ameaça de processo, todos lhe pediram desculpas envergonhadas). O ex-ministro Padilha foi vítima duas vezes dessa horda de imbecis, será que vamos esperar algum ato hostil mais grave?

Particularmente, fiquei chocado com esse último e selvagem ataque, pensei na dor da família, anos de luta contra uma doença terrível, convivo com isso a cinco anos sei como fragiliza a todos os entes queridos. Que tipo de canalha se presta a tal ação hedionda? Perdemos o pudor de sermos Idiotas? O que justifica tanto ódio?

A sociedade está doente, a mídia é sua voz mais alta, a mais estúpida e nojenta. Sem mais.

4 thoughts on ““Petista Bom, É Petista Morto”. Ou Quando o Mal nos Consumiu.”

  1. Comovente… é terrível este momento que o país atravessa. Não consigo entender como já fomos um povo “alegre e hospitaleiro”… Onde estamos?

  2. Revoltante atitude desses fascistas. O que mais choca é que parte de pessoas com idade próxima ou superior ao José Eduardo Dutra. Pessoas doentes, porque ódio é doença.

  3. Olá, Arnobio! Muito bem lembrado.
    Em Antígona, de Sófocles, a tragédia gira justamente em torno da luta da personagem por honrarias pós-morte para o irmão, tido como traidor por Creonte. Ela desobedece e é pega colocando terra sobre o irmão. O que na cabeça dela eram “regras dos deuses”, nenhum homem ou governo iriam impedir. Foi castigada por Creonte a ser “enterrada” viva dentro de uma caverna fria e escura. Aconselhado pelo oráculo a desfazer o mal feito, Creonte resolve soltá-la, mas quando o guarda chega lá era tarde demais, ela havia se matado. A tragédia é toda por conta do desrespeito ao morto, independente dele ter lutado pelo exército inimigo, era indiscutível o direito a ter seu corpo respeitado e ter um sepultamento digno.
    Mas é isso mesmo! Como você bem disse, o fascismo nasceu no seio da democracia. A história se repete, porque as pessoas não sabem usar a liberdade que têm e acabam rumando para caminhos antiéticos. Abraços e parabéns pelo texto!

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