Tiresias, o dom do adivinho.

Tirésias, o dom do adivinho.

 

Revisitar o mundo mitológico grego é descobrir sempre algo a mais sobre nós, nossas raízes e, mais ainda, sobre que somos. Os arquétipos são os símbolos que estruturam a consciência e dela se alimentam. Sendo os mitos geradores de padrões de comportamento humano, que nos faz viver de forma criativa, além de servirem na história como marcos e referência, pelos quais a consciência pode voltar às suas raízes, assim se revigoram.

Trataremos neste artigo sobre Tirésias, o “cego”, que tudo vê. Como sempre faço, minhas fontes mais seguras são os livros de Junito de Souza Brandão, pois além de sua erudição, há um rigor e um amplo apanhado de pensadores sobre a mitologia Grega e Romana. Segundo Junito, “Tirésias, o célebre (Teiresías), nome, cuja raiz deve ser o indo-europeu deiro, aquele que tem capacidade e “visão””.

Quando atingiu a idade para participar dos jogos iniciáticos, o jovem Tirésias sobe o Monte Citerão, ao atingir o topo ver duas serpentes em pleno ato sexual, imprudentemente ele as separou, tendo em seguida matado a fêmea, como castigo, imediatamente foi transformado em mulher. Passados sete anos, novamente Tirésias sobre o Citerão, tem de novo diante de si a cena de duas serpentes copulando, desta vez separa-as e mata o macho, recupera a sua forma de homem.

A dupla transformação de Tirésias ganha fama em toda a Grécia, até entre os deuses. Zeus ( Zeus Pai: O Deus Estado), agora o Deus único, senhor do Olimpo e a da terra, mas sua renitente esposa, Hera, era a única a desafiá-lo. Numa polêmica entre Zeus e Hera, sobre quem teria mais prazer amor, se o homem a mulher? Convocados os deuses, nenhuma opinião era definitiva. Tirésias é levado ao Olimpo e, como fora mulher e homem, poderia resolver o impasse.

Na presença dos deuses, Tirésias, forma mais que sofisticada: “Tirésias respondeu, sem hesitar, que, se um ato de amor pudesse ser fracionado em dez parcelas, a mulher teria nove e o homem apenas uma”. Hera irritada com a resposta, pois revelava o segredo das mulheres, cegou-o para sempre. A resposta colocava em relevo a superioridade do Homem, a transição da antiga sociedade matriarcal acabara Zeus (os homens), ao proporcionar mais prazer, era dele a felicidade da sociedade, agora marcadamente patriarcal.

Zeus como compensação deu dom da mantéia, do adivinho ao tebano Tirésias, além de viver por sete gerações humanas. Tirésias, porque era cego, possuía o dom da manteia, da adivinhação. Era um vate, um profeta, dotado de vaticinium, do poder da predição. Como nos ensina Junito:

“A visão de Tirésias, etimologicamente, o que tem capacidade de visão, é a visão de dentro para fora, por isso é mántis. Diga-se, de passagem, que, de maneira muito constante, a mântica está relacionada com a serpente, réptil ctônio por excelência e, por isso mesmo, em comunicação com o mundo de baixo, depositário muito antigo da adivinhação”.

E também nos explica sobre a mudança de sexo, seu caráter divinatório:“Acrescente-se logo que esses repetidos cambiamentos de sexo na antiguidade já eram considerados “como forma de expressão de uma natureza propriamente andrógina”, segundo resulta da representação de um espelho etrusco, em que Tirésias, no Hades, aparece com aspecto de hermafrodito”.

Tirésias nos parece mais que uma metáfora mítica, aquele que é cego, mas tudo vê, aquele que foi homem-mulher e mulher-homem, entendo os mais variados sentimentos dos sexos, passa a ser um intérprete de todas as mensagens e mistérios. O longo e rico ciclo tebano, de Édipo e seus descendentes, encontram em Tirésias a dura revelação do que segredos que estavam escondidos, de dentro para fora, devem ser revelados.

Tirésias é também o esclarecedor das maldições de Narciso ( Narciso (sem) Eco ). Ora, se a cegueira de Tirésias é exterior, a de Narciso é interior. Tirésias “vê” aquilo que não enxerga, de dentro para fora, já Narciso enxerga aquilo que não “vê”, de fora para dentro, uma dura dialética da “visão”. São duras e interessantes as lições com os mitos complementares: Tirésias e Narciso, quantos de nós somos Narcisos? Ou quantos somos Tirésias?

Uma provocação: Seria o google, hoje, Narciso ou Tirésias?

PS: Texto corrigido e republicado