Crise Dois Ponto Zero – O Papel dos BRICS

BRICS – Um novo Polo de Poder?foto:Sasha Mordovets/Getty Images

Os blocos comerciais, definidos no mundo acabam trazendo dentro de si, certa identidade regional, proximidade territorial e algumas vezes proximidade cultural. Os maiores como UE ampla e UE restrita (Zona do Euro) e Nafta restrito ( EUA, Canadá e México), MERCOSUL (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai), tiveram uma longa história para sua consolidação, mesmo assim alguns ainda capengam, por uma melhor definição de acordos. O Caso BRICS era quase uma ideia abstrata, uma sugestão cunhada pelo economista Jim O’neill, da Goldman Sachs, que, em 2001, viu nestes imensos territórios uma possibilidade comum de se unirem.

Passados 12 anos, formalmente apenas em 2009, efetivamente houve uma busca de por a termos os encontros e os acordos bilaterais no incipiente grupo. A liderança do Brasil, em chamar o G77, depois G20, que efetivamente esvaziou o antigo clube dos ricos, o G-7, foi o combustível político ideal. Mas, o que realmente os aproximou foi a luta para não caírem na Crise 2.0, que arrastou os EUA e a UE para o limbo. Algumas políticas comuns acabaram impulsionando a ideia mais formal de um grupo associado, com intervenções as mais próximas possíveis, nos órgãos mundiais como FMI, OMC e Rodada de Doha. A África do Sul foi incorporada ao grupo, neste período.

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As imensas diferenças culturais, as distâncias e os múltiplos interesses, longe de servir de entrave, uniram mais estes países, pois na grande crise criaram oportunidades de maior integração, mais reuniões formais e decisões mais concretas, como o próprio O’neill diz numa entrevista para revista Der Siegel, que em pouco mais de 10 anos o PIB destes países saltou de 3 trilhões para 13 Trilhões de Dólares, que os acertos comerciais entre eles, os salvou, em grande medida de não mergulharem na crise, que ali via uma estratégia vitoriosa, claro com vário problemas, mas com ótimas soluções.

Ano passado um grande passo foi dado na reunião de Nova  Delhi, no final de Março de 2012, algumas ações concretas foram tomadas para alavancar a união, que lhe deu mais organicidade e cara de bloco comercial. As mais importantes foram: a criação um fundo comum e a ideia de um banco de fomento, pois o BIS, banco de investimentos da UE, tinha fechado as torneiras para os empréstimos fora do bloco, o que prejudicava enormemente China e Brasil, que tomavam 25% e 15 % respectivamente, de financiamento para seus investimentos anuais. Ali, também foi anunciada a proposta de acordo mútuo, Brasil-China de 60 bilhões de Reais em conversibilidade direta de suas moedas, formalizado em Durban (Março de 2013).

Logo a seguir, no México, os BRICS tiveram decisiva participação na reunião do G-20, com várias propostas comuns, agindo como bloco. Em junho de 2012 os dilemas que atingiram os BRICS e algumas soluções que tinham decidido e que precisavam por em movimento, assim descrevemos:

“O ambiente geral é complicado, se em 2007/2008 os EUA caíram economicamente, mas a Zona do Euro se manteve, com um detalhe a mais, a Zona do Euro é a maior financiadora da China, cerca de 25% do investimentos gerais, 15% do Brasil. Com a Crise de 2011 houve um fechamento de torneiras dos financiamentos externos, tão essenciais a estes países, devido a baixa poupança interna. Além disto, as importações da UE da China caíram 7% em 2012. O mesmo se deve repetir com o Brasil. 

“Os BRICS têm sido aguerridos e por mais que tenham sobrevivido a atual crise, não estão imunes, recentemente se reuniram na Índia, buscando uma maior convergência de ações e intercâmbio, para que possam, de forma mais efetiva, protegerem suas economias e manter o crescimento econômico dos últimos anos. As duas políticas acertadas neste recente encontro são: 1) No comércio entre os BRICS, usar as próprias moedas; 2) Criar um banco de investimento do grupo; São medidas que dinamizam o comércio entre estes países, pois em parte não se precisa usar Dólar/Euro nas transações. O banco comum ajuda na questão de financiamento, diminuindo a dependência e do humor do mercado mundial”.

“Mais ainda, os BRICS se unem contra a chuva de trilhões imposta pelos EUA(FED) e UE(BCE), mais duas QE ( emissão massiva de moedas) que incentiva a especulação com as moedas locais, impondo sua valorização, causando um desequilíbrio das contas e tornando os produtos destes países mais “baratos” diante da produção local. O fluxo de capital com caráter especulativo desarruma as contas públicas de países como o Brasil”.

 

Finalmente em Durban, em Março de 2013, a reunião de cúpula dos BRICS, precedida de uma reunião dos Ministros da Economia do bloco, decidiu de forma mais direta: 1) O Fundo comum anti-crise de 100 bilhões de dólares (41 bilhões da China, 18 bilhões de Brasil, Rússia e Índia, 5 bilhões da África do Sul); 2) Indicação da criação do Banco de Fomento dos BRICS( os Ministros não superaram a diferença com a Rússia, que se opõe), esta decisão precisa de aprovação dos Presidentes dos países do bloco;3) Brasil-China assinaram a cesta de moedas de 60 bilhões de reais, para não depender de outra moeda no comércio bilateral.

Assim, começa a tomar corpo, de forma efetiva, o bloco econômico, erroneamente noticiado pela Folha de SP como o “FMI” dos BRICS, o fundo anti-crise, é mais similar ao Fundo Emergencial Europeu, que é usado entre os membros da UE, pouco lembrando o FMI, até no caráter e no modo de usar o tal fundo, o saque é livre até o limite de 20%, acima deste valor os demais membros farão auditoria, este fundo pode chegar aos 500 bilhões de dólares, podendo ser incorporado ao futuro banco de fomento comum.

A reunião dos Ministros da Economia dos BRICS foi prévia ao grande encontro da V Cúpula dos BRICS,  já provocando intenso barulho na mídia mundial. Os acertos dos Ministros, seguindo e detalhando as últimas reuniões de Nova Delhi, em 2012. Depois entraram cena os atores principais, os presidentes, aqueles que juntos são responsáveis por 43% dos habitantes do planeta e 25% do PIB mundial. Desde 2009, agora chegam ao 5º encontro com objetivos ambiciosos e mais claros, mesmo com todos os problemas adversos.

Como bem definiu a reportagem de capa do El País, cujo titulo não poderia ser mais explícito: “Os emergentes exigem sua cota de Poder”. A matéria explicita que “os líderes das principais economias emergentes, reunidos em um grupo conhecido como BRICS, inaugurou ontem na cidade sul-Africano de Durban um encontro cuja agenda não são apenas relações comerciais e políticas entre algumas das economias do mundo a crescer mais rápido apesar da crise internacional, mas também o futuro da ordem global“. Os desafios são gigantesco, fazer frente à ordem vigente, com dois carros chefes, primeiro, a criação de um banco para financiar seus crescimentos, quebrando a dependência do Banco Mundial e do BIS. Segundo, um fundo de reserva e estabilidade, parecido com o mecanismo de emergência Europeu (ESM).

A musculatura deste bloco é visível, os números abaixo não deixam dúvida, que, a vingar o bloco, fará um contraponto interessante aos EUA e a UE. Vejamos os dados compilados abaixo:

Fonte : Banco Mundial, número de 2011
Fonte: BRICS

Com este poder de fogo, é natural o questionamento dos velhos instrumentos da economia mundial, vindo do pós-guerra e nascidas em Bretton Woods, que seguem sendo mecanismos controlados pelos EUA, em primeiro lugar, secundados pela UE. O El País diz que, “os projetos BRICS certamente são ambiciosos, mas o diabo está nos detalhes. Embora haja vontade para criar o banco de desenvolvimento, persistia diferenças sobre seu financiamento, a localização de sua sede e como ela deve ser gerenciado.”Há uma tendência positiva, mas ainda não fechou o acordo para a criação do banco”, disse Anton Siluanov, o ministro das Finanças russo, para agência Reuters. Cada uma das partes procura moldar a instituição aos seus objetivos de política nacional e internacional e garantiu um justo retorno sobre o investimento. Índia defende uma reciclagem de banco de investimento excedentes orçamentais nos países em desenvolvimento, enquanto a China gostaria de ver a empresa investir em projetos que maximizem o comércio”.

O Capital inicial aportado seria um depósito conjunto de 10 bilhões de dólares de cada parceiro, o que somará 50 bilhões, aparentemente é pouco, diante de outros bancos de fomento, mas é uma primeira remessa, que deve nortear a confiança e os projetos locais e interacionais. A África é o alvo de grandes projetos, principalmente da China, que pode ser partilhado com os demais membros do bloco. Como declara, ao El País a nova autoridade Chinesa, o Presidente Xi Jinping, que estréia no cenário mundial, nesta reunião, “Estou ansioso para discutir planos de cooperação com os líderes de outros países do BRICS e as nações africanas. Acredito que com os esforços concertados de todos os participantes, a reunião será bem sucedido e levar solidariedade e cooperação com os países em desenvolvimento a uma nova altura “. Este norte dissipa qualquer dúvida para onde caminhará a política comum do bloco. Bem observa, ainda, o El Páis , que Xi Jinping deu o tom para a reunião, enquanto ele parecia sugerir que há diferenças entre os cinco países membros. Xi ressaltou a importância de ter se tornado BRICS cúpula sobre o eixo de sua primeira viagem internacional como chefe de Estado. Uma falha na criação do banco teria sido um sério revés para os BRICS, como teria dado voz para aqueles que acreditam que os membros deste grupo têm pouco em comum. 

O outro tema central, da última cúpula dos BRICS, este menos polêmico e já acertado pelos Ministros da Economia do bloco, foi o mecanismo anti-crise em forma de fundo, que somará 100 bilhões de dólares. O El País confirma ainda que “pouco antes do início da cúpula, China e Brasil assinaram um acordo para realizar o comércio em suas próprias moedas no valor de 30.000 bilhões de dólares por ano. Seu comércio bilateral atingiu, em 2012, para 75.000 milhões de dólares”. 40 % do comércio entre os dois não dependerá mais de dólares nas transações, o que alivia pressões sobre o custo da moeda americana, o que também assume um caráter simbólico, não se usar a “conversibilidade” universal.

Cabe ainda ressaltar como cada país tem entrado nesta cúpula, do lado russo, Vladimir Putin deu um tom extremamente político e de certeza que ali se aglutinará outro polo do tabuleiro mundial, segundo o El País ele disse que Os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) não são um clube de Moscou, mas uma ferramenta política e econômica para mudar a ordem mundial estabelecida, começando com as finanças. Estes objetivos estão descritos em um documento divulgado pelo Kremlin, na véspera da reunião de chefes de Estado do quinteto […] Segundo o site oficial do Kremlin, Putin aprovou a “concepção da participação da Federação Russa na parceria BRICS”. E parece claro, como descreve o jornal espanhol “na política externa de Putin, os BRICS têm uma vista privilegiada. Como parte dessa parceria, a primeira cúpula foi realizada em Yekaterinburg (nos Urais) em 2009, quando ainda estava em gestação, Moscou pretende reformar o sistema financeiro e as reservas internacionais para criar outro “mais representativo, estável e previsível.” A Rússia também apoia a criação de uma agência de classificação própria para dar “uma avaliação mais objetiva da situação dos bancos e empresas nacionais.” O Kremlin também quer institucionalizar os BRICS com um “secretariado permanente” e sugere, de fato, para congelar a admissão de novos membros para três ou quatro anos, durante o qual os membros atuais aprofundar a sua integração”.

 

Por fim, ainda sobre o que pensa a Rússia, “Putin chamou os BRICS como “um dos elementos-chave na formação de um mundo multipolar”, disse à agência oficial de notícias Itar-Tass. Essa parceria deve se tornar “um mecanismo de cooperação plena estratégica” que permite pesquisar ao longo do caminho para resolver os principais problemas da política mundial, disse o presidente. De acordo com o líder russo, BRICS rejeitam as pressõesa companhados pelo uso da força e de “erosão da soberania de outros países” e chamada para reforçar o papel central da ONU na política internacional. O documento validado por Putin considera necessário “evitar o uso da ONU, e, principalmente, o Conselho de Segurança, para cobrir política de regimes derrubados imposição desconfortável e forçada de variações unilaterais para resolver situações de conflito”. O presidente russo acredita que os países do BRICS têm o mesmo foco em questões como a guerra na Síria , a situação no Irã e no Oriente Médio”.

 

Se do lado russo, parece que há uma visão estratégica bem consolidada, a Presidenta do Brasil, Dilma Roussef, não fez por menos, num discurso inaugural da cúpula, pôs na mesa os objetivos do Brasil. Pontuou de forma clara os ritmos e o que se fez até aqui em que diz que “Em Durban, nós estamos no 5º Fórum dos Brics. É um ciclo de reuniões que nos unificou e que já se realizou em cada um dos países membros. Portanto, temos condições de fazer um balanço do que acumulamos até agora, das conquistas e planejar o nosso futuro. Nós temos um sólido patrimônio de realizações. Os Brics foram criados diante da necessidade de nos reunirmos para fazer face à grave crise que se iniciou nos anos 2007-2008. Hoje, mesmo aqueles mais céticos reconhecem a contribuição que o grupo Brics ofereceu, seja no debate dos temas mais candentes da economia internacional, seja por ter colocado na ordem do dia a importância do crescimento da inclusão social e da preservação e conservação do meio ambiente, tais quais nós definimos na Conferência do Clima Rio+20″.

Expôs ainda que, “em nossa diversidade os países do Brics estão unidos pela capacidade de enfrentar grandes problemas mundiais, pelo fato de serem países continentais com populações elevadas, com grandes desafios pela frente. Essa comunhão de similaridades também contempla uma ampla diversidade e uma ampla diferença que permite que as nossas economias sejam complementares. E após esses cinco anos de intensa cooperação, nós somos uma instituição que reúne quase a metade da população do planeta, a quarta parte do PIB global, 4,5 trilhões em reservas internacionais. Temos força suficiente para responder a responsabilidade que pesa sobre nós, a responsabilidade de suprir as deficiências que nossas populações, nos últimos séculos, foram condenadas. E ao mesmo tempo, avançar no rumo do desenvolvimento e do crescimento, e muitas vezes substituindo em dinamismo as economias mais avançadas. Hoje, nós temos a honra de ter a presidência do G-20 sendo constituída por um dos países integrantes do Brics, a Federação Russa, que certamente tem todas as condições para levar a pauta do crescimento, do emprego, da infraestrutura para a reunião dos 20 países que se agrupam no G-20, para esse fórum de cooperação econômica”.

E entrou direto no cerne da questão estratégica, para que servem os BRICS, bem em sintonia com o que defende Putin, Dilma diz que “os países Brics atuam juntos, em prol do crescimento inclusivo, de um crescimento que garanta o bem estar de suas populações, que torne as pessoas e os integrantes dos nossos países o centro do desenvolvimento. Para isso, eu tenho certeza que a presidência russa do G-20 vai impulsionar mais uma vez a agenda fundamental da superação da crise econômica. Nós defendemos também instituições multilaterais de governança econômica e política, tais como o Conselho de Segurança Nacional e o Fundo Monetário Internacional, por exemplo. E, nesses fóruns é importante que reflita-se o peso específico dos países Brics e dos países em desenvolvimento em geral, para que a representação e a governança sejam mais democráticas”.

Complementado que a agenda, do grupo, é complexa, num ambiente de crise, precisa de uma ” agenda da cooperação um passo à frente com contornos concretos como duas das iniciativas importantes que são: o banco Brics e o arranjo contingente de reservas. Além disso, a ênfase dada na questão da infraestrutura logística, energética e de conexão de comunicação dada pela agenda dos Brics mostra claramente o nosso compromisso com o desenvolvimento cooperado dos nossos países e também com a expansão da atividade econômica internacional. Nós estamos construindo mecanismos que nos ajudarão a enfrentar os desafios colocados a cada uma de nossas economias. Esses desafios – repito mais uma vez – consistem, sinteticamente, no crescimento econômico, na inclusão social e na proteção do meio ambiente”.

Os BIRCS, segundo Dilma, “tem também dando uma grande contribuição para a recuperação da economia internacional, devido ao dinamismo dos nossos países e das nossas economias.Hoje temos de ter em mente que se as economias avançadas se contraem, devemos fazer todo o esforço para ampliar as nossas próprias economias, os nossos próprios mercados. Se faltam investimentos nas economias avançadas, se faltam oportunidades de investimento, vamos ampliar os nossos próprios investimentos; e se há escassez de financiamento vamos criar fontes de financiamento de longo prazo” . E arremata dizendo “se há uma afinidade entre todos os Brics é a consciência da importância para os nossos países do investimento em infraestrutura. Seja infraestrutura econômica, logística – como eu disse – infraestrutura social. O investimento em infraestrutura, além de ser uma alavanca na inclusão social, é um excelente instrumento para nossa competitividade reduzindo custos, ampliando a capacidade produtiva, eliminando gargalos, sendo, portanto, um importante mecanismo anticíclico de estimulo às economias”.

Por fim, complementa a dirigente maior do Brasil “Desafiando céticos, a África é hoje uma região em processo de transformação política e econômica, que vem construindo sua estabilidade, um continente a cada dia mais rico em possibilidades e realizações. Segundo dados internacionais, dos 10 países com maior crescimento previsto até 2015, sete são africanos, o que é uma ótima notícia para o mundo e para a redução das desigualdades entre as regiões do mundo. […] Estou certa de que o século XXI será de afirmação do mundo em desenvolvimento. Nós vamos reduzir a distância econômica e social que ainda nos separa dos países mais avançados. Seremos, Brics, África e América do Sul, protagonistas decisivos deste novo cenário histórico de uma cultura de paz, de solidariedade, de justiça social e de cooperação fraterna. Alegra-me muito pensar que poderemos fazê-lo juntos”.

BRICS e o Brasil

 

Sem EUA e UE, com o Japão afundando numa dívida pública que supera 240% do seu PIB, o mundo abriu “vaga” para novos atores, como os BRICS( Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) que através do G20, desbancou o clube fechado do antigo G7, que explodiu com a Crise 2.0. Exceto a China, que mantém uma estrutura estatal controlada de forma central, os demais países do grupo já passaram por toda sorte de ajustes, com desmonte do Estado, várias quebras econômicas, mas que sobreviveram à hecatombe da Crise atual.

De toda sorte, os BRICS enfrentam desafios próprios de grandes complexidades como infraestrutura, cadeia produtiva e principalmente crédito. As torneiras fechadas nos EUA e Europa pioraram o ambiente nos últimos dois anos, mesmo as soluções de financiamento mútuo, ou de cesta de moedas comuns que substitua o Euro e o Dólar nas transações comerciais entre estes parceiros, não foram plenamente postas em funcionamento. Os próximos dois anos com os números incertos dos EUA e o retrocesso da UE sobrarão ao mundo os BRICS como alternativa de crescimento e de modelo de combate à Crise.

 

A Saída Brasileira para a Crise

Os dados da evolução do PIB do Brasil nos últimos dez anos, também vai nos ajudar a entender como a crise geral se expressou na economia do Brasil:

 

 

 

Olhando, atentamente, para estes números, percebemos que houve um ciclo virtuoso, que vai de 2004 a 2008, cinco anos de intenso crescimento, que se interrompeu apenas em 2009, com o momento mais crítico da economia dos EUA e UE, que fecharam suas torneiras, o que ameaçou o mundo inteiro.

Diante da possibilidade de queda geral da Economia brasileira, o ex-presidente Lula, teve papel fundamental em segurar firme a rédea do Brasil, com um acordo, ainda precário, com os BRICS, impulsionou o G20, que acabou substituindo o G7, ampliando assim a capacidade política e de intervenção no debate. Para isto, a equipe econômica do governo Lula ousou muito, soltou alguns freios, apostou firme em investir em plena crise. A resposta foi imediata, em 2010 e 2011 a economia cresceu alto e se manteve em bom patamar, no ano seguinte.

 

A aposta de Lula, seguida por Dilma era de que ou EUA ou UE superariam a crise em 3 ou 4 anos, o que parecia plausível, naquele distante novembro de 2008, então o Brasil, soltou às amarras da economia para crescer e aguardar que um novo ciclo se iniciasse. O que percebemos é que o auge deste processo se deu até julho de 2010, o ciclo virtuoso começava a ter problemas, nomeadamente à paralisia do mercado mundial e a inflação que ameaçava o crescimento interno. Em agosto de 2010 começa um lento processo de ajuste, uma tentativa de acomodação “suave” do Brasil diante da Crise, se percebe que a duração da crise econômica mundial seria mais longa, nem os EUA e muitos menos a Europa deu sinal de que retomaria um ciclo virtuoso. Ao contrário, os constantes QE( expansão da base monetária) exportava a inflação do centro para o mundo, o que dificulta em muito os ajustes locais

 

 

O Governo Dilma

 

 

Dilma recebe o governo bem melhor de quando Lula recebeu de FHC, mas numa turbulência mundial muito maior, a crise, na Europa, por exemplo, ameaça se tornar um cenário de recessão longa. Os EUA com sua tímida retomada, não garante um novo ciclo de crescimento, principalmente porque a ameaça passou a ser Zona do Euro. São dois anos de voo baixo, lutando a duras penas para não pousar de vez, com resultados ainda significativos, como o mercado de trabalho em expansão.

 

Quem apenas ler as manchetes dos jornais do Brasil, entra em pânico, afinal o FMI e a OCDE diz que o PIB brasileiro cresceu “apenas” 0,9% em 2012. Parece regra geral da grande mídia local “assustar” e criar um clima de desespero geral, deixando para matérias internas alguma verdade, que inclusive negam a manchete principal. Mas não são apenas a grande mídia que acossa o governo, do lado de cá a pressão é a mesma ou maior, grande parte de nós não consegue refletir o exato momento que o país atravessa. Claro que há um erro grave de comunicação do governo, mas também não há esforço em entender o que se passa.

 

A terceira eleição Petista, num ambiente de crescimento interno, mas que externamente, a crise só recrudescia, levou objetivamente a uma mudança de rumos, recuos necessários e claros, para uma longa transição econômica local, quase que isolada por um mundo em queda. Esquecer este “pequeno” detalhe é imperdoável para qualquer posicionamento sério. Dilma recebeu um país infinitamente melhor do que Lula recebera, mas os desafios colocados são bem mais complexos, o mundo inteiramente interligado facilitou uma ampla expansão de exportações com Lula, mas agora se restringe com a Crise.

 

A economia é a centralidade do governo, não é economicismo, é a realidade, renegar isto, ou partir para “aventuras” pode nos levar de volta ao passado, basta ver o nosso vizinho-irmão, a Argentina, não adianta fazer estripulias, depois o país não ter saída. O Brasil hoje é a sexta maior economia, tem mais responsabilidades, é uma economia muito mais complexa, que enfrenta uma crise externa terrível, quem me ler no Crise 2.0, sabe bem do que se trata. Aqui, não é absolver o modo Dilma de governar, mas entender o que se passa, o que se pode fazer neste momento.

 

A resposta, agora, parece clara, sim, a Crise 2.0 chegou aqui, por volta de agosto de 2010, mas o Brasil não vergou o que é muito, muitíssimo. Mesmo num cenário pessimista da OCDE, o Brasil não recuará mais, mas o nível de compreensão e apoio terá que ser maior, muito maior. Os altos índices de popularidade demonstram a confiança no governo, mesmo com baixo crescimento geral, uma série de medidas aproximou o governo do dia a dia das pessoas, a tarefa é enorme, não cair e ser esperança para os BRICS e também para o mundo.

 

 

Para onde aponta este modelo?

 

 

As soluções para Europa parecem ainda mais distantes que as dos EUA. Os dois lados (FED e BCE) atuaram conjuntamente nos imensos QE’s( Expansão da Base Monetária), no caso europeu serviu de recapitalização dos bancos, uma espécie de “pagamento” aos empréstimos não pagos pelas economias mais destruídas pela crise. Há um imenso estoque de títulos e moedas, sem que se empreste a ninguém, pois a remuneração é baixíssima e sem garantia de que se paguem como nos casos de Espanha e Itália. Provavelmente será usada nas privatizações que desmontarão os Estados, já quase sem soberania.

 

Destarte, a crise tende a permanecer por mais tempo, não haverá trégua, mas nada indica que seja “Crise Terminal”, que o Capital vai cair de podre e outras falácias. Nestes momentos, em que o sistema entra em curto-circuito, vai se abrindo possibilidades históricas de seu total questionamento, de sua ruptura, mas não significa o fim por si, precisa da ação consciente para romper. Pelo que verificamos, não gestamos forças para este momento, nem para nos defender dos males terríveis das forças produtivas, que significa, em última análise, que os trabalhadores e o povo pagam a dolorosa conta da Crise.

 

Mesmo com todas as dificuldades e diferenças, os BRICS ousaram construir algo diferente, que esperamos que vingue e floresça uma esperança para um novo mundo, multipolar, como tão bem pede o Presidente Russo, Putin. A Saída apontada pelos BRICS é totalmente diferente das implementadas nos EUA e UE, mostrando que há sim, alternativas para combater a crise. O que falta na Europa, principalmente nos países mais afetados pela crise, são forças políticas para seguir este modelo, romper com o Euro e a Troika.

admin

Nascido em Bela Cruz (Ceará- Brasil), moro em São Paulo (São Paulo - Brasil), Técnico em Telecomunicações e Advogado. Autor do Livro - Crise 2.0: A Taxa de Lucro Reloaded.

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