A mítica fazenda dos Rochas

 

“Há um vilarejo ali
Onde Areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão” (Vilarejo – Marisa Monte)

 

A Fazenda Santa Maria é parte da história de nossa família, não sei precisar quantas gerações dos Magalhães Rocha foram alimentados por ela, seus cajueiros são seculares, com certeza têm mais de 200 anos de vida, suas imensas copas serviram de abrigo contra o sol forte.

A casa central com seus longos alpendres, com dezenas de redes e tucuns, sempre prontos para deitarmos, era o deleite de toda as gerações. Faz parte das mais distantes memórias que tenho de lá. Lembro do meu avô, sempre sério, sisudo, sentado no tucum central volteado de filhos e netos, prontos a lhe servir.

 

Lembro mais ainda das noites com os lampões acesos,  em cada coluna havia um, iluminando os rostos que ali proseavam, celebravam a amizade. Os mais velhos contando histórias, estórias e causos.

 

Os mais novos, apenas ouviam maravilhados aquelas histórias, não tinha televisão para atrapalhar aquelas noites. Seu João Tomé, o velho sábio, contador de estórias de trancoso, que memória espetacular, inventiva. A cada estória suspirava fundo, dava até medo, tirava um rapé e cheirava forte. O cheiro do fumo sinto até hoje.

 

Depois da morte do vovô Doca Rocha, a doença do meu pai e sua volta para fazenda, construímos uma casa apenas para nós. Menor, mais aconchegante, virou nosso território. Ali meu pai revive seus tempos de menino. Um homem que se transformou de um pai duro à um avô “babão”.

 

As noitadas já não são iluminadas por lampões, a energia elétrica chegou, o telefone celular através destas antenas. A Televisão via antena parabólica, que o matuto chama de “parabótica”. Até a Internet está presente, que carinhosamente foi batizada de “internética”.

 

A despeito da modernidade, o tempo ali é outro, a vida é bem diferente os avós que cuidaram dos filhos, agora se dedicam aos netos, felizes com o bisneto, a certeza de que todos nós nos vinculamos pelas raízes daqueles árvores, os cavalos que cada neto acha que é seu. O amor que emana deles, que sopra no vento, nos faz viver mais fortes e convictos do nosso pequeno paraíso.

 

Agora quando ouvimos a música da Marisa Monte, Vilarejo , identificamos perfeitamente o que é nossa terra, nossos amados pais, avós, bisavós, tataravós, enfim nossa história…

Imagem de Amostra do You Tube

 

0 thoughts on “A mítica fazenda dos Rochas”

  1. É um privilégio ter tido essas histórias, essa fazenda, essa casa “que construímos” (quase à mão, né?), essa família grande, ter conhecido avós, cajueiros que dão sombra, num tempo que gente urbana, feito eu, com pai, mãe e mais ninguém, brincava em Copacabana, na praia, e nunca tinha visto um cajueiro ou um mamoeiro, ou uma vaca sequer. Mas a Copacabana da minha infância eu guardo na memória, porque é meu patrimônio. Os almoços nas casas de subúrbio do Rio, com roda de samba e futebol, de clientes operários do cais do porto com meu pai, me formaram. E andar de bicicleta alugada com meu pai até o Jardim de Alá no Leblon, olhando a paisagem da orla do Rio, ou as visitas frequentes ao Jardim Botânico, criaram em mim laços de amor à cidade e à natureza. Cada um com sua memória. Abraços

  2. Uma ótima descrição caro Arnóbio, eu também fiz parte desta história e ler o que foi escrito me recorda os tempos das lamparinas queimando querosene, o lampião a gás butano, seu João contando historias, seu Vicente e o Jeep dele que nos levava pro açude. os cachorros, os chocalhos… os passaros pela manhã, o luar que prateia aquela terra branca nascendo por detrás dos cajueiros centenários. Lembro da chegada da luz elétrica, a primeira TV, a parabótica, perebólica e outras variantes dadas pelos matutos os quais Tio Pedro faz questão de repetir com seu jeito de falar.
    Ir pra fazenda é uma proeza, até a estrada faz parte da história, o arrumar de malas… Felizmente temos este album de fotografias em nossa vidas. Grande abraço!

  3. Quantas lembranças esse texto maravilhoso evocou… Também tive meus momentos no interior, primos e primas em quartos enooooormes — separados! –, dormindo em fileiras de colchonetes, a barulheira da criançada de manhã, a confusão da cozinha, fruta no pé, banhos de cachoeira em meio aos gritinhos das meninas e as risadas dos meninos. E, sempre, as conversas na varanda, à noite, à luz dos lampiões, os sapos e os grilos em festa! Ah, e as cobras! Gente, como isso é BRASIL!!! Temos uma cara!

  4. Lindo! Também fui criada assim, não numa fazenda, mais na cidade de Teresina-PI, as historias de troncoso, os repentistas que minha mae trazia todos os meses, ficávamos no terreiro a ouvir.

  5. que bom ler estas suas lembrancas la da nossa santa maria sempre quando estou la so vamos dormir la pras dus da manha conversando com o pedro rocha e muito gostoso relembrar de muitos momentos felizes que passamos neste nosso paraiso um cherao nobim como a d. fatima lhe chama ou simplismente o meu filho

  6. Como é bom retornar à Fazenda e ficar perto das nossas origens, aliás com nossos pais sempre tão amáveis e acolhedores!!!! É maravilhoso reunirmos , infelizmente todos não estavam presente, mas a vida é assim, afazeres, compromissos….E o melhor de tudo isso é ouvir as histórias do pai que já conhecemos….na verdade a família unida isso não tem preço!!! Amo demais!!!

  7. Ao ler esse texto sinto a mesma emoção que o autor sentiu a escreve-lo. São sentimentos indescritiveis, aquele que corre no sangue, nas entranhas, como diz o tio Assis,através das geraçoes da familia Magalhães Rocha

  8. A casa do meu pai ė muito especial. Lá o tempo corre bem devagar, graças a Deus. Meu marido diz que gosta mais de la do que eu. Ele brinca comigo ė claro. Esse ė o lugar do mundo mais especial. Todos que vão la se sentem em casa!

  9. Oi Nobinho
    Como é bom ler o que você escreve, a Santa Maria é a vida de papai, Vida diz que o melhor de ir pra lá é a emoção da viagem…como ele é muito apressado levamos 5a 6horas de viagem,pois o bom é chegar qdo o papai ja está dizendo:-do jeito que são lesados vão demorar muitooo.As cantorias que o Raimundo fazia lá são impagáveis.

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