
“Vou dizer a vocês quem é meu verdadeiro oponente. Ele nunca concorrerá a um cargo. Nunca será eleito. No entanto, ele nos governa. Esse oponente é o mundo das finanças” (François Hollande – Ex-Presidente da França)
A Crise de 2005-2008, é uma das maiores crises do capitalismo e atingiu uma global como poucas vezes na história, algo como a crise de 1929. Essa crise cobra seu preço até hoje, com reflexos na Economia Global e na Política, com a mudança de paradigma, pois abriu as portas do inferno com o ressurgimento da extrema-direita como força hegemônica em todo o planeta.
As várias histórias trazidas ao cinema, às séries de tv/streaming, documentários, pequenas ou grandes produções, sobre o período entre 2005 e 2008, jogam luzes nesse complexo mundo que ali se forjava, fruto direto da “liberdade” infinita que o Capital conquistou com a Queda do Muro de Berlim e o predomínio do Neoliberalismo dos anos 80, do Goldman Sachs, executado por seus comandados no Governo Reagan.
O ótimo documentário O Golpe de 50 Bilhões (de Euros) (HBO MAX), aparentemente cometido por um Operador de Mercado. Jérôme Kerviel, de um dos três maiores bancos franceses, Société Générale. Kerviel, com 31 anos, em 2008, estava há 8 anos no banco, nos primeiros 4 anos era assistente de financeiro, tinha sido contratado ao final do curso de Economia. Acabou aprendendo a linguagem de programação usado pelos operadores de mercado.
Kerviel migrou para um grupo interno de pequenos operadores de mercado de baixo risco, em 2004. Pessoalmente com valor de 200 mil euros para operar no mercado aberto. Rapidamente ele se mostrou um operador ousado e inovador, no primeiro ano apresentou resultado de 500 mil. Anos seguintes meta subiram, para 3 milhões, 7 milhões e 12 milhões em 2007.
Metas que ele batia facilmente e passou a usar o sistema interno para fazer uma engenharia financeira/contável paralela para esconder aplicações bilionárias, sem ganho pessoal, mas como um desafio, em 2007, ele tinha meta de 12 milhões em operações, em 15 dias do ano, ele bateu, então passou a apostar alto na queda do mercado (o subprime) chegou a “perder” 2 bilhões de euros na metade do ano, quando a aposta dele virou, teve ganhos de 1,5 bilhões, todo valor em contabilidade paralela, reportou 55 milhões de euros em 31.12.2007.
O sistema interno de atividades de mesa, alertou 74 vezes (em 2007) que as operações de Kerviel estavam milhares de vezes acima do permitido, porém nada foi efetivamente feito. No início de janeiro de 2008, com um “caixa” de 1,45 bilhões de euros, o operador voou alto, apostou 50 bilhões de euros, praticamente todo o valor do banco, sem que ninguém percebesse, exceto por uma transação específica de 1,4 bilhões, que soou o alerta máximo, numa sexta de 18.
A investigação interna chegou ao Kerviel e ele explicou o seu método e que ele tinha no seu “caixa” 1,45 bilhões e “devolveu” ao caixa do banco. Durante o final de semana, mais investigações e a bomba atômica, 50 bilhões aplicados, em apostos que deram prejuízo de 6,3 bilhões, descontados dos 1,45 bilhões. O clube dos bancos de Paris deu 3 dias para limpar as operações, no dia 23, o prejuízo reportado foi de 4.9 bilhões de euros.
Toda a responsabilidade foi debitada para apenas um operador júnior de 31 anos.
Vale assistir o documentário porque ali foi uma prévia do viria em 15 de setembro de 2008, o dia da queda de Wall Street, em que as práticas de mercado se tornaram explícitas, a quebra de confiança geral em governos e Democracia se segue até hoje, o que de certa forma justifica o discurso da extrema-direita contra o Estado e o Status quo, que o mercado capturou o Estado e este só atende os interesses do “Sistema”.
A apresentação didática de como se construiu um Operador, tornado “bandido” solitário, vira um herói contra os bancos e como o Poder não consegue explicar os bancos, nem as decisões judiciais, destaque o MP francês.