1939: Eleições Presidenciais como parte do Espetáculo e da Catarse Coletiva


Distopia, a sociedade dos espetáculo e do consumo que se esvazia num segundo, sem satisfação.

Soltei os panos sobre os mastros no ar
Soltei os tigres e os leões nos quintais
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer
(Panis et circenses – Caetano Veloso, Arnaldo Baptista e outros)

O poder exercido como parte de um espetáculo permanente, com as ações dos governantes voltadas para o circo, a ilusão de uma alegria efêmera, ou ser sempre para buscar a catarse coletiva, o exato sentido da palavra, a Purificação, o transe encontrado através de grandes eventos sociais e de grande repercussão que por instantes há uma espécie de unidade entre povo e governo.

Os jogos olímpicos comemorativos dos gregos, ou seus concursos de teatros, em que fundia ação política, pedagogia educacional e transmissão de valores sociais, jurídicos e políticos reconhecidos como legítimos e aceitos como normas de condutas, refrear costumes violentos, relações incestuosas e vinganças de sangue, por exemplo.

Em Roma, a dimensão da sociedade espetáculo se aprofunda, a expansão e conquistas, tornam aquele centro difusor, não apenas para cidade-estado, mas da cidade-nação-império. Os valores do império são levados pelas campanhas vitoriosas para fora dos seus domínios, tornando modo de vida, de costumes, leis e formação humana.

Os jogos no Coliseu se tornam ponto alto de sociedade marcadamente violenta, acostumada à guerras externas e rebeliões internas, golpes, assassinatos de imperadores ou candidatos ao título, quase sempre dominado pelo Senado, o senil, o velho, o sábio, manietando o destino do império, conspirando e fazendo acordos para manutenção de poder.

Manter jogos violentos, além da distração e do espetáculo, era a exibição de Poder, as lutas, os arquétipos de heróis representados na arena, com sangue e morte, fim último de qualquer humano, mas diante de 50 mil pessoas eufóricas, o transe e a catarse, a purificação e a “cura” de uma sociedade alimentada pelo Poder de matar e de ser Império.

Ora, dois mil anos depois, de certa forma, outros impérios, mais sofisticados vão atravessando o mesmo dilema dos velhos imperadores de como dosar conquistas e manter o espetáculo, os valores que levam para fora em suas guerras militares ou econômicas, na maioria das vezes, simultaneamente, como também a ordem interna, especialmente a forma de representação da Democracia e na forma de Poder Político.

Nesse sentido, as eleições ganham, de certa forma, a disputa de uma luta numa arena de um Coliseu, agora na forma midiática. De como homens e mulheres se apresentam, suas armas, artimanhas e táticas de luta, guerras, os novos/velhos arquétipos.

De certa forma, a racionalidade, a lógica, perderam o sentido, dando espaço para a “Emoção”, espetáculo, a versão do pão e circo, ganha ares mais dramáticos e com capacidade ilusória nunca antes imaginada. Em contradição com aquilo que é possível efetivamente fazer, pois o Poder, a que concorrem, em regra, são extremamente limitados, o Poder Real, econômico, da burocracia permanente, não permite grandes mudanças, apenas aquelas, para manter o status quo.

As características das disputas eleitorais mais recente, com o suporte da Internet e das Redes Sociais, em grande parte esvaziou o poder da velha mídia tradicional, mas atente-se bem, que os velhos donos das antigas mídias, são os mesmos controladores das “novas” mídias, ainda que esse controle em si, pode ser desafiado, no mínimo, exposto.

O alerta para quem faz política de forma tradicional, com parâmetros de racionalidade, usando de lógica, de formulações políticas sofisticadas, cada vez ficam mais distantes dos corações e mentes, pois raramente dominam as técnicas de uma realidade líquida, de informações que vencem em segundos, de realidade que dissolve no ar, com um novo meme, ou de algoritmos mais eficazes, que vão segregando ideologicamente cada pessoa.

Em síntese, a sociedade de espetáculo, do passado remoto, ou próximo, se moldou à distopia, a falta de uma Utopia, de uma ideia que possa transformar pessoas e sonhos. A busca última é sempre a Catarse, nem sempre será a que tradicionalmente se buscava, dos altos valores humanos, democráticos e de justiça social.

O desafio de 2022 é enorme.

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