Sócrates e a Democracia Corinthiana

 

Sócrates: Doutor, Político e Craque

Hoje leio no Diário Lance! Um colunista que diz ter Sócrates como ídolo, ok acredito que ele tenha falado sobre futebol, mas conhecendo as opiniões do colunista sobre política e Brasil, vejo que é muito difícil que ele possa admirar o Homem Sócrates e seu significado político no futebol.

Sócrates para além de grande jogador,entre os maiores que vi,está o Homem, o Cidadão, um dos líderes da Democracia Corinthiana, do movimento das Diretas Já. O Dr Magrão já se destacara no Botafogo de Ribeirão Preto por jogar e fazer faculdade de medicina, uma coisa rara, mesmo hoje. Um acerto dele com os dirigentes faziam com que ele apenas se apresentasse nos dias de jogos e treinos, permitindo que ele concluísse um curso dificílimo como Medicina.

Quando estava tudo certo entre Botafogo e São Paulo para que Sócrates fosse jogar no Morumbi, o lendário Vicente Mateus vai até Ribeirão Preto e procura diretamente o jogador e o convence que seu lugar é no Corinthians, que recém saíra da fila, mas que carecia de um grande ídolo como fora Roberto Rivelino. Ele acertou em cheio.

Sócrates chega em 1978 ao Corinthians e faz dupla com Geraldo, depois com Palhinha e é campeão paulista em 1979, que na verdade termina em 1980, numa joga de mestre Vicente Mateus se opões as semifinais em rodada dupla adiando-as para ano seguinte.  Mas a grande mudança mesmo acontecerá em 1982.

A Democracia Corinthiana: A Revolução do Parque São Jorge

O Corinthians já tinha experimentado uma primeira revolução democrática com o surgimento da Gaviões da Fiel em 1969, que nasceu como forma de combater Waldih Helu, presidente do time e um dos comandantes da Arena o partido da ditadura. Com os métodos do regime perseguiu torcedores com repressão aberta e cacetetes policial. Alguns membros fundadores da Gaviões foram vítimas do regime militar.

(Anistia Ampla Geral e Irrestrita )

Esta centelha de clube/torcida contestador, terá grande desdobramento no começo dos anos 80.  Depois de péssimos resultados em 1980/81 caiu a gestão Mateus e sobe Waldemar Pires, o sociólogo Adilson Monteiro Alves vira Diretor de Futebol, em abril começa uma pequena revolução de costumes no futebol brasileiro: A Democracia Corintiana. Em plena ditadura, quebrou paradigmas, time era bom demais, ganhava títulos, tinha compromisso social e político. As decisões do futebol eram discutidas e votadas pelos jogadores, comissão técnica, roupeiro, massagistas.

Sócrates, Vladimir, Zenon, e o jovem Casagrande, eram os maiores expoentes da Democracia Corinthiana, fruto das célebres greves do ABC, movimento pela anistia, o país começava a respirar novos ares pelas liberdades e um dos maiores times de massa, no estado mais rico do país entra em plena sintonia com este momento, as célebres mensagens nas camisas, ou faixas carregadas na entrada ao gramado pedindo, por exemplo, Diretas já ou Eu quero votar para Presidente, ou ainda o lema do time: “Ganhar ou perder, mas sempre com Democracia” foi revolucionário demais.

Os gols de Sócrates comemorados com punho cerrado, símbolo da esquerda, da necessidade de se insurgir contra os milicos, festa da Democracia, aqueles tempos de 1982 a 1984 foram os mais importantes da história do Corinthians, o time foi capaz de galvanizar o sentimento social e o Doutor Sócrates com sua maestria e genialidade se tornou um líder natural. A participação dos maiores ídolos do Corinthians nos comícios das Diretas Já, a faixa prendendo os cabelos de Sócrates até me emociona, quase leva às lágrimas.

Esta liderança de Sócrates o levou a ser capitão da maior seleção brasileira de todos os tempos, o time comandado por Telê em 1982, jogava por música, eram craques do 1 ao 11, e tinha pelo menos três gênios no meio de campo: Falcão, Zico( o maior deles) e Sócrates. Os deuses do futebol não permitiram o título mundial, mas jamais esqueceremos os seus feitos.

Gols de Sócrates

Sócrates ainda hoje é o 8º maior artilheiro da história do Corinthians com 172 gols, mesmo jogando como ponta de lança. Ele foi o único jogador eleito unânime como um dos 11 de todos os tempos do timão. Foi eleito pela FIFA um dos 100 maiores de todos os tempos.

É quase impossível dissociar a Democracia Corinthiana da imagem de Sócrates, a figura que foi um dos seus mais lúcidos e vibrantes porta-vozes, jamais aceitou as visões autoritárias de técnicos e esquemas do futebol.

0 thoughts on “Sócrates e a Democracia Corinthiana”

  1. Excelente Arnóbio,

    Vou aproveitar para fazer uma confissão pública. Quando desses episódios quase que “virei a casaca” . Aquela forma de rebeldia conquistou muita gente à época.

    Muito bom o enfoque dado por você neste texto. Vamos repercuti-lo para nossos amigos corintianos e não-corintianos.

    É história ! (tô velho)

    Abraço
    @Limarco

  2. Excelente e emocionante texto. Doutor Sócrates Brasileiro é uma figura especialíssima da história brasileira e deve ser muito homenagiado em vida. Acontece, que alguns conservadores o preferem como uma legenda do passado porque temem suas posições progressistas e transformadoras do presente. Numa era de jogadores bon vivants, Sócrates honra a identidade corinthiana de estar íntimamente ligado ao povo e contrariar o estabelishment. Como ele diz em um depoimento lindíssimo, o Corinthians tornou-se um canal de espressão popular. A voz da queles que não podem falar.

  3. “vejo que é muito difícil possa admirar o Homem Sócrates e seu significado político no futebol.”

    revisa isso ae, meu chapa! esse “possa” tá perdido ae no meio….

    o texto tá legal. bela homenagem.

  4. Boa, Arnobio. Foi um movimento muito legal, sem dúvida, absolutamente precursor. O regime militar já estava degringolando, mas ainda assim era preciso ter peito para fazer o que eles fizeram.

    A Democracia Corinthiana nasceu com caráter interno (eleições corinthianas e reivindicações de atletas por salários, contratações etc), mas logo migrou para aspectos externos – sendo a campanha das Diretas Já o ápice desse processo.

    Daqui do Rio Grande do Sul era interessante ver aquele time do Corinthians entrando em campo com faixas e cartazes – e a TV focando bastante isso (embora os comentários em si fossem compreensivelmente recatados).

    Eu estava no Estádio Olímpico na noite chuvosa da semifinal contra o Corinthians (com 40 graus de febre!), em que o Grêmio venceu de virada por 3×1 (Sócrates tinha feito um golaço no primeiro tempo) e acabou limando aquele time de disputar a final contra o Flamengo, mas sinceramente não lembro se eles chegaram a entrar com a faixa aqui em Porto Alegre.

    De qualquer modo o movimento foi inovador. E aqueles atletas, além de jogarem muita bola, deram um enorme exemplo de cidadania.

    Esses atletas como Sócrates não eram jogadores de um clube específico: eram da nação brasileira inteira. Nós torcíamos para nossos clubes, mas era impossível não se encantar com os adversários.

    Tomara que o Doutor se recupere logo!

  5. Sócrates, não foi para o meu São paulão, em compensação foi seu irmão Raí, ou quase Xenofonte :Meio-campista, é irmão do também ex-jogador Sócrates. Como o pai de Raí era fã dos filósofos gregos, deu a seus três filhos mais velhos os nomes de Sócrates, Sófocles e Sóstenes. Seu Raimundo queria que Raí se chamasse Xenofonte, mas sua mulher, Dona Guiomar, conseguiu dissuadi-lo da ideia.

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Ra%C3%AD

  6. É um dos poucos homens públicos de que podemos ter orgulho.Você viu e contou bem sobre ele.Não sou corintiana mas isso é de importância menor diante do que representou esse homem símbolo de liberdade.

  7. Valeu, Arnobio,
    Grande homenagem ao grande craque. Sujeito homem é aquele que dá a cara a tapa quando tem motivos para falar. Infelizmente, poucos ou nenhum jogador seguiu o exemplo do Dr. Sócrates. Mas ele me inspirou em minha infância…
    Todo respeito e toda força ao grande Brasileiro.
    Parabéns pelo texto.
    Abraço.

  8. Grazie pela homenagem Arnobio, tudo o que se diga que recupere a memória desse período da democracia corintiana levará
    ao grande líder dela, Sócrates BRASILEIRO.

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