Crônicas do Japão VII: Cotidiano e tecnologia

 

Rotina nos Trens

A rotina de quem anda de trem, trabalha ou estuda em Tókio e nas cidades grandes são desgastantes, pois, logo cedo os trens estão lotados, filas são imensas nas estações, cada vagão há um guarda todo paramentado, inclusive com luvas brancas que ao receber o sinal do controlador delicadamente empurra os últimos passageiros.

Trens cheios, poucos bancos, às vezes nenhum, uma coisa que choca um ocidental é que ninguém dar lugar nos bancos quer seja para mulheres, mesmo grávidas ou idosas. Certa feita eu cedi meu lugar a uma senhora ela recusou, eu insistir, até que ela se sentou, ficou espantada, porém ao meu lado, um cara começou a falar mal, mal sabia ele que eu entendia os impropérios, apenas porque dei meu lugar. Bem estas coisas culturais têm que aceitar e respeitar.

Havia também na época uma campanha por denuncia dos assédios sexuais nos trens, era muito comum os homens se aproveitarem dos vagões lotados e “passar a mão”, infelizmente pouca mulheres enfrentava aquele constrangimento e os denunciava, uma sociedade machista demais em que as mulheres se submetem a este tipo de humilhação.

Outra coisa muito curiosa e espetacular era a técnica de “dormir em pé”, caramba os caras literalmente dormiam durante os trajetos, mesmo mal acomodados, aquilo sim é técnica sofisticada de relaxamento, mais ainda, tinham um despertador automático de descer exatamente em suas respectivas estações… Quer dizer nunca confirmei se eles não tinham passado do ponto… Mas dormir em pé é sensacional.

“Dormidor”

Mangas

Entrar no trem é ver milhares de Mangas abertos, as revistas populares com historias que vão de jogos de beisebol até as lutas de samurais, passando por moda, estilo de vida, as mais variadas e coloridas, que, invariavelmente, perdida no meio delas tem umas novelinhas eróticas, assim do nada, claro com os famosos “tapa sexo” (mosaicos).

(Pai)

Os Mangas ajudam no vocabulário e disseminação de uma língua muito complexa, rica em detalhes, seus ideogramas com significados próprios, algumas palavras com a mesma fonéticas, mas separadas radicalmente quando se ler o kanji, por exemplo, hospital e cabeleireiro têm o mesmo som, mas são escritos de forma totalmente diferentes. Estas sutilezas de uma língua com seus mais de 15 mil ideogramas precisam ser popularizados para amplo conhecimento, os mangas são excelentes neste aspecto. Curiosidade, apenas para se ler a capa de um Shibum (jornal) é preciso conhecer pelo menos 1000 Kanjis, para ler o jornal inteiro, uns 3000, um graduado numa universidade domina 10000. Como falei a língua é usada também como instrumento de dominação e de hierarquia, na sociedade, no trabalho, na vida.

Celulares

Já em 1996 os celulares eram muito populares no Japão, muito coloridos, tela com boa definição, porém ainda muito pequenas, os primeiros mangas para celular começavam a circular, em cima do SMS, as mensagens traziam curtos contos e figuras.

Recentemente com a explosão dos smartphones, da possibilidade de telas maiores os celulares vão paulatinamente concorrendo com os mangas, em 2009 o livro mais lido no Japão foi transmitido via celular, para mais de um milhão de aparelhos, o download era enviado principalmente na hora que se ia ao trabalho, capítulo a capítulo.

Desde daquela época as músicas também eram comercializados nos celulares, desde 2000 a maior fonte de lançamento de músicas no Japão são feitas via celular, as operadoras são as maiores distribuidoras de músicas, se paga pelo recebimento dos “single” que são convertidos imediatamente em ring tones.

As principais operadoras celulares são gigantes que investem pesado em tecnologia, antecipando tendências e gerações de celulares. Em 2000 a primeira versão da 3G, foi customizada para o Japão. Em 1996 havia 46 milhões de terminais, no Brasil naquela época não chegava 2 milhões, todos lá eram digitais, aqui caminhava-se com os terminais analógicos. Naquela época mesmo os EUA o celular ainda não era massivo, com menos de 20 milhões de terminais.

Por morar em residências muito pequenas, preço do metro quadrado nas grandes cidades é absurdo, tudo que se pode tornar minúsculo se fazia, os CDs, foram rapidamente substituídos por MDs de posteriormente pelo MP3, espaço é vital, TVs de Plasma, LCD, LED substituíram as de tubo, mesmo estas na época que morei eram bem reduzidos os tubos para ocuparem o menos espaço possível.

A revolução digital mais do que um luxo no Japão se tornou uma necessidade, aperfeiçoar produtos, facilitar armazenamento é fundamental, poderosos Notebooks, aqui era uma raridade em 1996, já era amplamente usado no Japão.

0 thoughts on “Crônicas do Japão VII: Cotidiano e tecnologia”

  1. Continuo interessada em suas descrições precisas , quase fotográficas. Espero as impressões ao final . Parabéns pela capacidade de observação .
    @sulains

  2. Oi Arnobio, gostei muito de termos conversado hoje a tarde.
    Estive lendo seu blog e gostei muito de todo material que vc posta aqui.
    Tudo de muito bom gosto,esta de parabéns.
    Acabou de ganhar uma nova seguidora.
    Mande nos sempre noticias,ok?
    Um grande abraço.

  3. Legal saber que no Japão as pessoas são ‘educada e limpamente (os guardinhas usam luvas)’ enlatados nos trens.

    E olha q se isso fosse no Brasil a galera ia dizer q é algo atrasado ou bizarro. Aliás, algo parecido ja deve ter acontecido nos Terminais de Fortaleza, no da Parangaba, da Lagoa, do Siqueira ou do Antonio Bezerra… nas famosas linhas do SAUDOSO Paranjana (ele não existe mais… snif :( ) ou do Grande Circular (peguei muito esse onibus pra ir a casa de uma namorada… ).

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