Ser ou não ser…pequena reflexão sobre nós mesmos

 

 

I –  Cronos de curvo pensar: A força da natureza

 

Na teogonia Grega, Cronos de “curvo pensar” numa ação refletida decepa o pênis do pai maldito, Urano, o pai do céu, tomando-lhe o poder, tornando-se o senhor dos deuses. Ao decepar pênis este se ejacula e no mar nascem as ondas e no meio destas Afrodite, que em grego significa “amor-do-pênis”.

 

De um mesmo ato, psicologicamente, Cronos livra-se da opressão paterna, sucedendo-o simbolicamente com a nova energia criadora que se estabelece e ainda dar, no âmbito da psique, a separação do amor fraternal, representado por Eros, e o amor sexual, agora personificado em Afrodite.

Este deus(Cronos), ou homem desta época histórica é ligado à fúria à força da natureza primeva, desprovido de sofisticação, toda as suas demandas são revolvidas pelo ethos da hybris. Medir forças e o mais forte vencer é uma imposição da natureza adversa em que se vivia, não havia tempo para reflexões filosóficas da necessidade de mediar à disputa de forma a debater-se e decidir-se de forma pacífica os conflitos. Mais ainda a definição daquele que deve liderar o grupo não pode haver dúvida de seu poder, inclusive o sexual de dar a reprodução não apenas às mulheres, mas o exemplo à natureza.

 

II – Hamelet – O príncepe Filósofo


Com Hamelet teremos a oportunidade de acompanhar uma sucessão traumática de duplo caráter, o jovem tem de matar não somente o pai(morto, mas insepulto, um fantasma a lhe assombrar), rei velho, mas também aquele que o matou, seu tio e corrompeu sua mãe.

O duplo fantasma: do pai que lhe exige vingança e do “novo” pai(seu tio Claudio) que lhe exige fidelidade ao seu reinado. Nesta confusão de sentimentos o príncipe filósofo, posto numa rude Dinamarca, solta talvez a mais crua e forte reflexão sobre as dúvidas que mais assolam a alma humana:

“Ser ou não ser… Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes?

Morrer… dormir… mais nada… Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se.

Morrer.., dormir… dormir… Talvez sonhar… É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando ao fim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos.

É essa idéia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis amorosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemendo, se não por temer algo após a morte – terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém voltou – que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados?

De todos faz covardes a consciência. Desta arte o natural frescor de nossa resolução definha sob a máscara do pensamento, e empresas momentosas se desviam da meta diante dessas reflexões, e até o nome de ação perdem.…” (ATO III , Cena I)

Muitos de nós conhecemos os trechos iniciais do ..ser ou não ser… Raramente sabemos o momento em que são pronunciadas e as fatais conseqüências. O monólogo dar-se no momento crítico do livro, Hamelet já sabedor de que seu pai fora morto, sabe que seu novo “pai” é o assassino, mas a inação lhe consume e tira este longo debate de seu ser. No fundo o homem que aparece agora é o do renascimento que carrega o saber grego da alta cultura, mas agora é irresoluto, domina sua hybris, mas se revolta por não ser mais primitivo e dar cabo aos seus sofrimentos, que no fundo é o mesmo de Cronos, que de forma simplificada resolveu seus traumas em relação ao pai.

Porém este novo homem, mesmo vivendo na Dinamarca, já não “mata” o pai, ou os pais no caso, de forma literal, a sofisticação lhe impede de um simples ato morte, é mais complexo e sutil, agora ele reflete, pondera, tem medo dos seus atos e de suas conseqüências funestas, mas ao mesmo tempo lhe enche de ódio e revolta não dar cabo a sua angústia. Deste longo debate da consciência moral x consciência primitiva, nascerá o novo homem, que guerreia disputa poder, mas não é mais produto da natureza irracional.

Neste momento de tormenta que passo, lembrei vivamente deste monólogo, foi uma forma que encontrei de voltar a escrever, me abstrair das coisas que vivo intensamente. Estas reflexões que Hamelet fez, martelam na minha cabeça diariamente, tem coisa mais atual do isto?

Aos que querem conhecer mais profundamente a obra segue o link para baixá-la gratuitamente:

http://cultvox.locaweb.com.br/frame_universia.asp?IDParceiro=4&Pagina=http://cultvox.locaweb.com.br/download.asp?File=http://cultvox.locaweb.com.br/livros_gratis/hamlet1.pdf

As análises mais interessantes que conheço são as de Harold Bloom, ele analisou o Hamelet em duas obras: Shakespeare – A Invenção do HumanoHamlet – Poema Ilimitado.

0 thoughts on “Ser ou não ser…pequena reflexão sobre nós mesmos”

  1. Política e Cultura:O vulgo e a democracia.
    Há um modo indolor para o tempo do digesto das questões maiores.
    -Fecha o olho e te atira…risos!
    Se propuseres o raciocínio literal, da responsabilidade, daquilo que se chama de política no nosso Brasil,certamente ficarás no deserto roendo as unhas,arrancando os cabelos.
    Até mesmo te sentirás um tolo.
    Façamos do limões,a limonada e não desprezemos sumáriamente a roda de orações.
    Ao menos as tuas mãos estarão distraídas.
    Serenidade,Perseverança e muita…muita esperança!

  2. Vou de Guimarães:

    “A gente tem cada cisma de dúvida boba, dessas desconfianças… Só pra azedar a mandioca…”

    Deixe azedar não. Beijão!!!

  3. A linguagem é muito limitada pra descrever a tua capacidade e fortaleza meu camarada !!! Nessa hora somente um gesto,uma mão estendida, um abraço forte, poderiam expressar a emoção que se sente na tua escrita ! Lembre-se – os melhores são imprescindíveis e vc é um deles !!!
    Abração

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