Um Conto de Natal em Moscou, 1937

O culto à personalidade e a submissão covarde.

A neve cobriu Moscou, as ruas próximas ao Kremlin, quase não se consegue passar, o frio do inverno rigoroso, desse 1937, que teima não chegar ao seu final. A cinzenta paisagem, teve apenas no 07 de novembro último, sua única festa. As pessoas se olham e olham aos outros com desconfiança, a discrição e nenhum comentário mais alto se faz, o medo é a marca, quase tão grande quanto as imagens do Chefe supremo.

20 anos se passaram, desde aquele sangrento e miserável inverno, a fome e a miséria foram deixadas para trás, sem no entanto que se viva ainda privações, do enorme esforço coletivo pela pátria-mãe. A revolução permanente (fictícia do combate interno à contrarrevolução) e a coletivização forçada, foram tomados do maior inimigo, transformadas em política do Estado.

Os heróis daquela conquista estão praticamente todos mortos, os que sobreviveram, apenas se curvam diante dele, o Koba. Até os mais íntimos foram levados ao ostracismo, ou mortos, nesse último ano e meio dos processos de Moscou.

O grande inimigo perambula de país em pais, sem rumo, sem apoio, o seu destino e de sua família, há muito já está fiado, apenas aguarda-se o momento para sua execução.

Nessa tarde de Natal, os mais próximos, disputam um lugar na mesa do Kremlin, sabem que têm que ser discreto, reverentes diante dele, nada de olho no olho, ou arroubos de coragem, apenas responder o que for perguntando.É uma felicidade ser convidado ao Palácio, ceia com ele, parece um sonho. Porém, todo cuidado é pouco, cair em desgraça é rápido e fatal. Mesmo nesse dia de Natal.

As regras são claras, o georgiano, odeia essas datas, apenas o Poder lhe faz sair da reclusão, que o tempo frio impõe. O trabalho o faz dormir pouco, não tem mais laços familiares, os últimos eram com os karmenevs e Zinovievs, ambos expulsos do ciclo do poder e mortos no ano passado.

Os brilhantes e cultos revolucionários, como Kruspskaya, Bukharin, Karmenev, Trotsky, Zinoviev, Kirov, foram substituídos no coração do poder, por medíocres estúpidos, como Beria, Kagabovich e Malenkov, esses estarão à mesa com o Comandante.Claro que hierarquia é rígida, uma mesa apenas para os mais próximos, atuais, já treinados para não contrariar o grande líder.

O Natal é apenas uma comemoração mundana, nesse ano de 1937, a neve combina com a época, sombria, que cheiro de mais desgraças, internas e externas, se anunciam…

Stalin sorri e paira sobre todos, devotado, temido e idolatrado, independente de qual Natal se comemore.

admin

Nascido em Bela Cruz (Ceará- Brasil), moro em São Paulo (São Paulo - Brasil), Técnico em Telecomunicações e Advogado. Autor do Livro - Crise 2.0: A Taxa de Lucro Reloaded.

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