O Irlandês – Uma Grande Ópera

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O irlandês, vários geniais artistas juntos, numa Ópera, maior do quem um filme.

O estranhamento é o mesmo, pois estamos diante de um clássico, e, para ser clássico, ele tem de incomodar, tirar nosso conforto, nosso olhar benevolente, atingir as entranhas, excitar o corpo e a mente. Difícil de digerir e de entender o todo, precisa de ser revisto, como também foi assim em Cassino, Touro Indomável, para que se atinja o devido saber.

Assistir O Irlandês é como rever Cassino, Os Bons Companheiros, Gangues de Nova York, O Lobo de Wall Street, etc, ou seja, todos grandes filmes do genial Martin Scorsese. Ele é aquele diretor que incomoda, que espeta, espezinha o capitalismo vitorioso, em especial, o neoliberal, cuja racionalidade enganosa, tenta esconder como se formou o maior império, os Estados Unidos.

O mundo visível e invisível das relações de máfias, sindicatos, políticos e de corporações econômicos, que se fundem na ganância, que resolvem suas pendências, em última instância, à bala, contando com a conivência do Estado, que em geral, tolera e fecha os olhos para esse funcionamento “natural”, cuja maior lei é a dos mais fortes, que vai devorando os que fraquejam.

Contar essas histórias tão fundamentais para a formação da América, ainda causa incômodo, desconforto, mexer com ícones, como o clã dos Kennedys, Nixon, entre outros, parece meio sacrilégio, a história oficial, não admite que o Estado tenha relações tão promíscuas com esse submundo, violento, cuja maior regra são as alianças de sangue e irmandades tribais, vindas do outro lado do Atlântico.

Esses homens de bem, pais de famílias rígidos, que batizam seus filhos, confessam seus pecados, frequentam as igrejas, contribuem com elas, são abençoados e perdoados, filantropos e celebrados em suas comunidades, ao mesmo tempo em que espreitam suas próximas vítimas, seus desafetos ou que lhes atrapalha os negócios, quase sempre “por fora” da receita e impostos

Há uma ética muito definida, aparentemente estranha para a maioria de nós, que escapa do simples moralismo, da condenação do que é legal ou ilegal, cujo resultado foi uma forma de impulsionar o capitalismo, os empréstimos fora dos bancos, do “compliance”, com juros próprios, fortunas gigantes de fundos de pensões, que criam cassinos, empreendimentos imobiliários, ou financiam uma aventura política na ‘Baía dos Porcos”.

Obviamente que esse Capital se “realiza” na grande máquina, se funde e se lava, com o financiamento de campanhas eleitorais, sem nenhum conteúdo ideológico claro, pouco se distingue um Republicano ou um Democrata, apenas quem pode alavancar e facilitar a expansão de negócios e reprodução do Capital. A gênese pode ser ilegal, o resultado final, não.

É esse o contexto grandioso do filme, Scorsese traz à tela, seus bons companheiros, Robert De Niro,  Joe Pesci e Harvey Keitel, além de Al Pacino. Todos familiarizados com o tema, se sentem à vontade, a idade os fez cada vez melhores, há um evidente prazer em atuarem juntos, confiam na mão e no que o diretor irá levar ao cinema. Há uma atuação enorme, silenciosa, de Anna Paquin, a ingenuidade que se perde, uma metáfora de dentro para fora.

O filme é tão longo e parece tão curto, nada fora do lugar, a experiência dramática é apurada, todas as falas, as teorias conspiratórias, tudo está ali, uma revisão de meio século dos pós-guerra, da máquina de poder americana, no mundo, que se concretiza, nos seus submundos, nas mortes, na violência bruta do que é o ser humano, que vai além da política.

Nem é preciso falar da reconstrução primorosa, dos cenários, da música (Delicado, de Waldir Azevedo, maravilhoso) e das grandes atuações, tudo isso parece natural no cinema de um mestre como Scorsese, que ameaça não mais filmar, o que será um pena.

É uma Ópera, não um simples filme.

admin

Nascido em Bela Cruz (Ceará- Brasil), moro em São Paulo (São Paulo - Brasil), Técnico em Telecomunicações e Advogado. Autor do Livro - Crise 2.0: A Taxa de Lucro Reloaded.

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