Quatro Estações em Havana

Quatro Estações em Havana: Série da Netflix baseada nos livros de Leonardo Padura.

“Foda-se a ventania, disse então para si mesmo, pensando que não devia ficar dando voltas e voltas em suas melancolias, pois conhecia o antídoto: uma garrafa de rum e uma mulher” (Ventos de Quaresma – Leonardo Padura)

Agora dividido entre assistir um filme, uma série ou tentar escrever um novo post. Ali no youtube toca “City of stars”, música do aclamado La la Land, a trilha tem coisas boas, o filme, nada demais. A mente viaja por temas, livros, cinema, sem nada específico. Bem, na verdade, ainda sob grande impacto da série “Quatro Estações em Havana”, que fantástica reconstrução e respeito aos livros do Leonardo Padura, a quem considero o grande escritor vivo.

Havana e seus mistérios, crueza, contradições. Possibilidades e limites. Descrito com maestria por Padura, em obras fundamentais e imperdíveis. A amargura, a dor incurável de promessas revolucionárias incompletas, que lhe causam tanta frustração, para nós, brasileiros, são coisas tão próximas, essas mesmas sensações e nem passamos por revolução ou qualquer processo mais profundo de ruptura.

Dessa realidade, que nos parece tão intima, Padura cria algo espetacular, crítica mordaz ao sistema, não importa se justas ou não, elas existem e são explicitadas de forma genial. A adaptação é um primor, o ambiente noir, pois a Havana parece se conservou nos anos 50, os carros velhos, com a fumaça cobrindo as ruas, tornando mais cinza e escura a quente cidade, escurecendo a noite. Os grandes e pequenos delitos escondidos por trás dessa nuvem. O ano em que se passa a série é chave para a história do século XX, 1989.

A questão política é tratada em cada diálogo, nas relações de Poder na Delegacia ou nas ruas, na condução das investigações do alter ego, Conde. Sua visão pessimista com tudo e todos, estabelecendo dor e conflito em cada cena. Os momentos de relaxamento com os velhos amigos de juventude que ainda permaneceram em Cuba, suas frustrações coletivas e individuais são expressas pela pobreza e não ter saída para suas aspirações. A formação universitária não lhes trouxe grandes benefícios materiais, pois reflete os limites gerais do país, até compreendido, mas não aceito, a acidez é a tônica.

A poderosa música cubana ecoa em todos os momentos, o que também lembra muito o Brasil, sua gente, sua ginga, a miscigenação e sua alegria, ainda que à beira da tragédia, parece um alento para persistir e seguir por caminhos incertos, que, em geral, não dará em lugar algum, como se isso fosse uma sina, de não se chegar lá, seja lá onde seja. A música atenua a dor, liberta o espírito sofrido, quer seja do cubano ou do brasileiro.

São profundas reflexões, a série é extremamente fiel aos livros, diálogos, ao estilo próprio de Padura. Tinha visto o “Retorno à Ítaca” com roteiro dele e sonhei em ver “Hereges” e mais ainda “O homem que ama os cachorros”, a escrita dele é fundamental para entender um lado B de Cuba, que todos devemos enfrentar e conhecer. Mas seus temas são tão comuns a qualquer país latino, fala muito do que todos nós somos.

Imperdível.

Vientos de La Habana. Musica: Mikel Salas

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