Reminiscências: Amor aos Livros

Jorge Amado e seus marcante Capitães de Areia

“Vestidos de farrapos, sujos, semi-esfomeados, agressivos, soltando palavrões e fumando pontas de cigarro, eram, em verdade, os donos da cidade, os que a conheciam totalmente, os que totalmente a amavam, os seus poetas”. (Capitães de Areia, Jorge Amado).

Ainda hoje trago comigo as imagens que criava ao ler Capitães de Areia como sofri, (ainda hoje sofro) por Dora e Pedro Bala. O amor impossível e a destruição do trapiche. Somente a literatura nos marca com tanta profundidade, pouco importa a verdade/ficção, mas o quanto aqueles personagens se tornaram íntimos de nós, em nossas vidas e nos marca para sempre.

O hábito de leitura foi uma descoberta natural numa casa com muitos irmãos, eu era o caçula por um tempo. Eles liam para mim, depois pegava o livro e fingia ler também, até que de repente a mágica se fez, as letras se juntavam e uma palavra somada à outra surgindo uma frase, nem acreditava que estava lendo, já não dependia mais deles, tinha quase cinco anos.

Na escola, D. Neuma, a rígida professora de português exigia a “ficha de leitura”, o que era tormento para todos, para mim era um prazer. O boletim veio com 10 em todos os bimestres. Na quinta série o maior desafio era a D. Tereza (a madrasta de meu pai), exigente com todos, mais ainda com os “netos”. Mais uma vez uma coleção de notas máximas.

As fichas de leituras eram mais completas, ano após ano e como aquilo era bom, os amigos pensavam que eu era maluco, por gostar das letras, mais do que jogar bola. Tudo nos livros fazia sentindo, na estante repleta de casa, na biblioteca do Instituto Imaculada Conceição e ou da Escola Reunidas, do estado, que minha mãe, Fátima Rocha, era diretora. Por muito tempo eu frequentava as duas escolas para ficar na sala de leitura.

O primeiro grau foi maravilhoso, amava as aulas de português, melhorou mais ainda graças ao primeiro comunista que conheci, meu professor Roberto Falcão, poeta, ator, escritor, um ex-exilado político, que ensinava no Colégio Oliveira Paiva, em Fortaleza. Tinha 12 para 13 anos e aquele professor falou maravilhas dos trabalhadores do leste europeu de que liam muito.

Além disso, ele me apresentou ao Jorge Amado, ao Érico Veríssimo, ao Machado de Assis, as poesias de Carlos Drummond de Andrade e de Castro Alves, as crônicas de Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Lygia Fagundes Telles. Ali deixei um pouco de lado o grande Monteiro Lobato.

Além das fichas de leituras, os maravilhosos debates, as leituras de poesias e trechos de livros. Competíamos para ver quem lia mais, pelo prazer da leitura. Numa certa feita, fiquei 4 dias sem sair de casa lendo “O tempo e o Vento”, durante uma semana santa. Todos em casa achavam que estava doente. Aqueles livros de capa dura, vermelho, letras douradas, são inesquecíveis.

Como posso não amar os livros? Pois, se sou alguma coisa é graças a eles e aos meus amados professores, D. Neuma, D. Tereza, Falcão e depois o inesquecível Mario Carneiro, na ETFCE (Escola Técnica Federal), na época eu era quase “profissional” do Movimento Estudantil, mas não perdia as maravilhosas aulas do meu mestre amado.

A vontade de iniciar um novo ano, no meio de tantas coisas ruins, vou buscar nessas reminiscência uma mensagem positiva e que possa nos redimir de todo o mal, pois só os livros têm esse poder especial.

Excelente ano para todos.

2 thoughts on “Reminiscências: Amor aos Livros”

  1. Arnóbio, você mandou bem ao lembrar do professor Mário Carneiro. Fiz apenas um semestre com ele, o p1, mas era o tipo de ser humano que marca a vida de um estudante.

    Um dia desses, ano passado, ao jogar fora papéis antigos achei um dos poemas do Mário: o pote, a lata, a vida, a morte.

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