A prisão no rochedo e a liberdade de pensar para enfrentar o Poder.

A prisão no rochedo e a liberdade de pensar para enfrentar o Poder.

“A inteligência nada pode contra a fatalidade” (Prometeu Acorrentado – Ésquilo)

Pano rápido para o mito de Prometeu (mais detalhes aqui: Mito de Prometeu e as religiões e O Prometeu Acorrentado – Resenha e Análise). Zeus destrona seu pai, Cronos, e enfrenta uma guerra contra seus tios, os Titãs. Ajudado por Prometeu consegue derrotá-los. Com o poder absoluto, Zeus resolve destruir os homens, pois estes não lhe deram apoio na sua escalada ao Olimpo.

Condoído com o destino dos homens, Prometeu, rouba o Fogo (a sabedoria) de Zeus e entrega aos humanos. O Pai dos deuses entrega a Caixa de Pandora aos homens, como se fosse um armistício de paz, porém ao abri-la o mal foi espalhado as guerras, as doenças, as dores e a morte. Mas a vingança contra Prometeu, será ainda mais terrível, pois aquele que prever, tem o dom de saber quem um dia derrotará Zeus, isso é inaceitável.

O castigo de Prometeu é sua prisão no Cáucaso, as montanhas nos Urais, lá acorrentado por Hefesto, exposto ao Sol e às ondas do mar, ele ainda é atormentado por águia que lhe devora o fígado, depois espera que o mesmo de regenere e volta comer-lhe. Este terrível castigo é uma das mais fortes cenas da literatura que conheço, lembra o sofrimento continuo de quem está doente, com esperança vã de curar-se.

Uma rápida lida e veio uma inspiração de colocar personagens do presente nessa obra inigualável, que é tão atual. Olhando assim teríamos: Zeus (O Poder, o Kapital), Prometeu (Lula), Hemes (o agente do Kapital, seria o Juiz ou o MP, desesperados por delação), a Águia (a mídia que todo dia se alimenta do fígado de Lula). Hefesto (os agentes da PF – Hipster ou japonês), O Cáucaso ( Curitiba).

O fogo do saber roubado de Zeus e dado generosamente aos Homens, nada mais seria do que as políticas sociais que deram alguma dignidade ao povo. É um ato simbólico tão fundamental e imperdoável. Claro, que a Caixa de Pandora, é a corrupção que é bem própria do Kapital, mas que se espalha na humanidade como um dos seus maiores males.

Mas o Prometeu (Lula) Acorrentado tem muito mais a nos contar, uma pequena parte da famosa peça, se tão pouco nos diz tanto, imagine se completa. Ela é o canto da liberdade. do desafio ao Poder e à Potestade. É a liberdade filosófica não apenas sobre a prisão física ou da psiquê, mas o quanto podemos ser livres, ainda que presos. Muitas vezes não estamos presos ao rochedo, mas nossa alma e a cabeça são totalmente escravas de Zeus, Pai (o Poder).

A mensagem é de desafio, ainda que preso aos grilhões; a alma e a cabeça,  completamente livres, de Zeus,  Pai, como bem responde Prometeu, quando admoestado por Hermes:

Prometeu Essa fala impertinente, cheia de soberba, é bem a linguagem dum lacaio dos deuses. Vós sois moços; recente, o poder que exerceis; imaginais, por isso, viver numa torre acima dos sofrimentos; já não vi eu dois reis expulsos dela? O terceiro, o atual reinante, eu o verei também cair de maneira ignominiosa e rápida. Pensas que temos os novos deuses e me encolho diante deles? Para isso falta muito; melhor, falta tudo. Desanda ligeiro o caminho por onde vieste, que de mim nada saberás do que indagas.

Hermes Semelhantes insolências já te trouxeram a ancorar neste suplício.

Prometeu Pois saibas sem sombra de dúvida que eu não trocaria minhas misérias pela tua servidão; acho preferível estar escravizado a este penhasco a ser o mensageiro fiel de Zeus teu pai. A injúrias responde-se assim, com injúrias.

Hermes: Pareces orgulhoso da tua situação.

Prometeu: Orgulhoso? Orgulhosos assim tomara visse eu os meus inimigos – e incluo-te nesta conta.

Hermes: Culpas a mim também de teus desastres?

Prometeu: Francamente, odeio todos os deuses; devem-me favores e pagam-me com iniquidade.

Hermes: Ouço palavras de louco, e a moléstia é grave.

Prometeu: Moléstia será, se odiar os inimigos for insânia.

Hermes: Serias insuportável, se houvesses triunfado.

Prometeu: Ai de mim! Hermes Essa exclamação Zeus desconhece.

Prometeu Tudo ensina o tempo com a idade.

Hermes: Tu, porém, ainda não aprendeste a ter juízo.

Prometeu: Tens razão; assim não fosse, não conversaria com um lacaio.

Hermes: Pelo que vejo, nada dirás do que meu pai deseja.

Prometeu: Com efeito! Por muitas finezas lhe devo ser grato!

Hermes: Vê se não zombas de mim como duma criança.

Prometeu: Então, não és uma criança? não és mais ingênuo que criança, quando espera obter de mim alguma informação? Afronta não há nem astúcia com que me mova Zeus a revelar o segredo antes de soltas estas infames cadeias. Agora, podem lançar sobre mim a chama devoradora; podem revolver o universo, confundi-lo sob a neve de asas brancas e com os ribombos subterrâneos; nada me dobrará a dizer por quem tem de ser derrubado Zeus do poder.

Hermes: Vê lá se lucrarás alguma coisa com essa atitude.

Prometeu: Já vi e resolvi tudo há muito tempo.

Hermes: Louco! tenta ao menos uma vez pensar cordatamente, em face do que sofres.

Prometeu: É inútil me aborreceres; é como dar conselhos aos vagalhões do mar. Jamais te ocorra que, por medo aos desígnios de Zeus, a minha mente se efemine e, palmas voltadas para cima, imitando as mulheres, eu suplique ao ser mais odioso que me solte estes grilhões. Eu? Nunca!

O que preciso dizer mais?

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