o sol corta a névoa num dia de primavera.

o sol corta a névoa num dia de primavera.

“Trais pra mim vãs brividade
Qui eu quero matá a sôdade
Fais tempo qui fui na fêra
Ai sôdade…”
(O pedido – Elomar)

A densa névoa abraçou a fria São Paulo, a paisagem de prédios e avenidas e marginal era branca-cinza, o ar da cidade está estranho, assim como o do país. Parece que, aqui, todas as incertezas se somam, que nem o lindo sol que ameaça cortar firme a cortina de névoa, vai clarear o dia, ainda que ele fique azul, a tensão permanecerá e ficaremos em suspenso, nesse compasso de espera.

Começo a revirar meus livros, os melhores estão na minha cabeça, reviro suas páginas, quem sabe uma frase, uma sentença, venha iluminar minha alma atormentada pelas trevas, nem parece que estamos em primavera, ou estamos na primavera de Praga. Literatura e política vão colidindo na minha mente, uma salva, a outra tortura, mas em ambas encontro minha síntese.

Vou saltando os livros, a música, no fone de ouvido, leva-me aos caminhos mais líquidos, imediatos, os doces prazeres de minutos, as pílulas de Alice ou de Matrix, não importa, algum descanso mental. Os acontecimentos e as perspectivas continuam inconclusas, o que refletem na minha vida, sempre colocada em xeque, nesse xadrez infinito, de muitas e ideias e poucas ações.

As palavras estão deslizando na tela, lentamente, na mesma velocidade em que os meus olhos se fixam no infinito, o cheiro de café recém-feito completa a cena. As reflexões já não são mais tão profundas, o prazo imediato das coisas práticas sobrepõe aos sonhos. O prazer e a felicidade são pequenos hiatos na vida, de resto é cinza e luta, não importa o que fazemos e o que queremos.

É a arte que prolonga a felicidade dos momentos curtos, o que nos cabe é retirar toda a arte de cada breve instante.

“Deus me acuda! A arte é longa, a vida breve.
Já de tanto estudar chego a ter dores
de cabeça e de peito”.
( Fausto – Goethe)