A história e seus tempos nas Redes Sociais.

A história e seus tempos nas Redes Sociais.

“Cada qual, diz benigno, tem seu dia;
A vida é breve e irreparável tempo;
Mas rasgos de virtude a fama exalçam”. (460-462, livro X, Eneida, Virgílio) 

Meus dias têm mais de 24 horas e peço para que eles não sejam tão longos, que me torture menos, para que possamos viver o dia seguinte, sem saber ao certo como será o dia porvir. Quantas vezes exigimos mais tempo, mais horas aos nossos dias, para realizar mais coisas e viver o improvável e o imponderável de um dia que não acabe logo. As redes sociais têm uma influência direta na quebra do paradigma tempo-espaço, em algum momento vai ter que refletir essa nova realidade.

O “tempo” das redes sociais e a extrema velocidade com que se desenvolve qualquer relação nestas circunstâncias, os atos de vida, tempo e espaço, se comprimem, se concentram, aquilo que em média viveríamos por um largo período, passa a ser determinado por horas e dias. É uma violência, mas, ao mesmo tempo, é espetacular: Conhecer, viver, sentir e morrer em tão poucos instantes. Mas a sensação de que vivemos rupturas em rupturas cada vez mais breves, certamente, não é a das melhores. Este tempo-espaço, das Redes Sociais, ainda não foi devidamente assimilado ou dimensionado pelo cérebro humano comum, quem sabe em breve alguma droga vai potencializar ou regular estas novas sensações.

A complexidade humana, suas imensas possibilidades e suas enormes potencialidades, no instante que abre uma infinidade de horizontes, também abrirá uma série de incertezas e tomamos milhares de pequenas e grandes decisões em frações de segundo ou mesmo por um largo período, com mais maturação, independente disto são exigidas tais ordens e comandos, que nosso poderoso cérebro tem de armazenar e dar respostas, cada vez mais veloz, nem sempre as mais “corretas”. Óbvio que precisamos criar algumas pontes, ou pontos de retornos, em que sabemos que podemos voltar ou seguir em frente sem medo.

Depois de debater longamente, nos últimos anos, sobre os novos tipos de relações trazidas pelas redes sociais, chegamos algumas conclusões, porém nenhuma delas é definitiva ou taxativa, são pontos para nortear um debate:

  • A primeira delas é que ficou impossível ignorar e passa ao largo das Redes Sociais, negar sua existência, como também é preciso delimitar marcos de sanidade entre Real e Virtual.
  • A Segunda é que as redes sociais tornaram tudo urgente demais, todas as demandas se concentram e TODOS os atos, também se concentram em breve momentos. Por exemplo, o Amor e o Ódio afloram em segundos, em pouquíssimos contatos, tudo aquilo que levaria meses, anos para se definir como concreto se resolve em horas ou em dias.
  • Terceira questão, consequência da segunda, há profundidade em qualquer relação, qualquer que seja ela (amor, política, amizade), nas redes sociais, pois ela é determinada pela fusão tempo/espaço, os atos concentrados se existem em poucos instantes. Isto serve tanto para o bem, quanto para o mal.
  • Quarta característica, as redes sociais trazem o conhecimento tão próximo de cada um e ele é imenso, mas, ao mesmo tempo, ele se torna superficial, pois ele está dado, a busca se torna menor, pois se sabe que é disponível, portanto não se percebe a necessidade de ir mais fundo.
  • Quinta questão é que temos acesso a tudo ou a quase tudo, porém, o tempo e a maturidade para compreender cada estágio ainda não romperam com a noção temporal.
  • Sexta, o cérebro deverá se expandir exponencialmente, para melhor absorver o conhecimento e ampliar a capacidade de retenção, ou apenas “conheceremos” muita coisa, com pouca apropriação, sendo idênticas as formas tradicionais de conquista do saber. Por exemplo, lemos um livro, clássico ou não, hoje é mais fácil este livro, pois está disponível, mas a experiência em lê-lo, rápido ou lento, continuará a mesma, mais ainda, a compreensão sobre ele continuará a depender de muitos outros fatores, portanto não rompemos com a Teoria do Conhecimento Real, não surgiu uma nova Teoria do Conhecimento, virtual.

Contraditoriamente, as redes sociais, amplificam o que há de pior no ser humano, pois funcionam como um púlpito para qualquer discurso, especialmente os grupos de whatsapp. Eles viraram a forma última de se propalar, amplificar e propagandear a mediocridade humana. O que não é dito em público amplo, mas de forma privada, amiúde, aquilo que demonstra, para mim, como a sociedade está contaminada, envenenada, pelo ódio de classe, de preconceito e desumanidade.

A tragédia humana se torna exposta em tempos de Crise econômica, a moralidade e o humanismo acabam sendo as primeiras vítimas desses momentos críticos, valores como solidariedade e dignidade são esquecidos, o que se tem exposto é apenas o que há de pior em nossas entranhas, o nosso lado animal irracional. O mal é apenas banalizado, não é à toa que regimes fascistas nascem e crescem nessas condições ideias para o desenvolvimento do ódio como categoria política fundamental, nisso as redes sociais funcionam como o veículo ideal.

O inconsciente coletivo pode funcionar como uma autodefesa para nos mantermos éticos e solidários. Ajuda, ainda, a compartilhar experiências e noções desses “velhos” valores dentro de ambientes diferentes como os das redes sociais, pois eles primam pelas soluções líquidas e imediatas, enquanto aqueles valores são construções demoradas, para que se sedimentem.

Reafirmar velhos conceitos, implicâncias e impertinências, sem dúvida, é o que me restou na jornada. Bom exemplo disso são as velhas músicas de que gosto, sempre velhas, ou meus livros prediletos, também de séculos passados, ainda que seja um heavy user de tecnologia, brincar com essa dualidade, velho e novo é uma saída.

Bem-vindos ao velho e novo mundo.