Da fundação à queda, três mandatos presidenciais, um ameaçado de não se completar. (foto Agência O Estado)

Da fundação à queda, três mandatos presidenciais, um ameaçado de não se completar. (foto Agência O Estado)

“Era um telhado e um pombal
Melodia e madrigal
E ninguém nem percebia
Que o real e a fantasia se separam no final” (Canção em Dois Tempos – Vital Farias)

Esta é a semana mais tensa da história do PT e de boa parte da esquerda militante, que não é petista. O país está no limiar de um golpe de estado extremamente bem urdido, maquinado pacientemente por 13 anos e quatro derrotas eleitorais seguidas, com uma clara perspectiva de uma quinta derrota. A economia e a história de militância garantiram a força do PT nesses embates, desde a primeira vitória em 2002, mas agora nem um, nem o outro parece servir de escudo.

Lembro-me da cena que vi no velório de Luiz Gushiken (Companheiro Gushiken? Presente, Hoje e Sempre!) em que revi aqueles velhos quadros da esquerda brasileira, em especial os do PT. Ali esteva reunida a mais importante e vitoriosa geração de militantes de esquerda do Brasil, boa parte dela forjada na ditadura e que foi decisiva na reconstrução do movimento sindical, social e político brasileiro, nos anos de chumbo, para derrubar o regime militar.

Aquele ousado grupo construiu oposições sindicais, venceu sindicatos, fundou a CUT, o PT, teve participação decisiva no processo de redemocratização do Brasil. Durante a constituinte, mesmo em ínfima minoria, trouxe os trabalhadores para o centro dos debates e incluiu pontos fundamentais na Constituição. Estes quadros, temperados na luta, chegou à Presidência com um dos seus melhores nomes, Lula, o primeiro presidente vindo do povão sofrido e trabalhador, sem a educação formal.

Bem, vamos ser francos, toda esta geração de dirigentes do PT e de seus aliados, começando por Lula, jamais será perdoada por ter ousado governar o Brasil. Suas vidas seriam e serão escrutinadas para sempre, o pecado de ter desafiado o poder tradicional, não será engolido, nisto se insere a questão do “mensalão”. Sem minimizar os fatos ocorridos, o PT aceitou o jogo eleitoral como ele é, com caixa dois, sobras de campanhas e montagem de base parlamentar, senão não se ganha eleições e principalmente, não se governa. Usou-se as armas para se vencer e governar, nada diferente dos outros 100% governos eleitos em qualquer época.

Sem entender estas questões vamos fica eternamente na condenação moral, jamais chegaremos ao essencial, que é mudar a lógica de se fazer política no Brasil, mas não apenas aqui, é uma lógica do Kapital, que se reflete em todas as eleições no mundo, quer seja aqui, nas eleições dos EUA ou agora na Alemanha de Merkel. Desprezar estes dados, em verdade, é abandonar a arena política, assim como fizeram os “indignados” espanhóis e entregaram o governo à Direita com uma maioria esmagadora, que mesmo com um governo fraco, corrupto, entreguista e de desmonte do Estado de bem-estar social permanece no poder. As lutas se dão em todas as cenas, não somos nós que escolhemos o cenário, muito menos as armas.

Olhei aquela cena, no cemitério, um momento de solidariedade, reencontro, mas de profundo pesar, notei que os principais quadros estavam não apenas envelhecidos, mas destruídos fisicamente, de forma assustadora, a pressão, o isolamento político, o cerco diário midiático, a forma covarde de atacar a vida pessoal, a história de vida, parece que vai vencendo lentamente e letalmente os quadros, que mesmo experimentados, a energia já não é a mesma. O gosto pelo assassinato de reputações não lhes dará chances de defesa, quem sabe daqui a 49 anos a “Globo” pedirá desculpas ao Lula e aos seus companheiros. Aquela ilusão de que seriam aceitos como conciliadores, do diálogo, foi atropelada pela Luta de Classes sem trégua, não sei se aprenderão a lição.

Olhando um pouco para o dia seguinte ao golpe, percebe-se que o diálogo com esta nova geração que surge é truncado, poucos compreendem as razões políticas e ideológicas ou as opções de luta e vida que os velhos quadros tiveram, alguns preferem reduzir as questões a um moralismo tolo, muito próximo do que sai nos jornais e revistas vinculados ao grande Kapital. Há aqueles que foram construir pequenos partidos, radicalizados na forma, mas conservadores no conteúdo. Pouco ou nada de novo, diferente, se conseguiu de alternativo fora da experiência do PT, esta é a realidade. Por fim, surgem os liquidacionistas internos, que enxergam, em toda crise, a necessidade de “refundações”, velha e única tática das lições da esquerda europeia, que levou ao fim os grandes partidos de esquerda na Europa, hoje não passando de aglomerados ou “movimentos”.

O que nos aguarda não será nada fácil, os destinos da Esquerda brasileira (PT volta à Planície) vai bem mais além da decisão do STF (condenação do Mensalão) ou da Lava Jato (Moro-MPF), pois esta é mera formalidade, eles já entraram condenados, de  nada adianta argumentar, nem lá, nem nas ruas, pois não se dão o direito de pensar diferente do que já pensam, nisto a Direita usou com eficiência todo seu poder, Mídia e Judiciário, para criar o clima de condenação e linchamento prévio, qualquer questão técnica jurídica será vista apenas como manobra, para evitar condenação e prisão e espetáculo televisivo.

Agora se repetirá no impeachment, às favas as provas, o que se busca é apear o PT do poder, sem direito à defesa, a combinação da condenação prévia televisiva com ação de  Moro-MPF, com seus métodos de investigações medievais, em breve se traduzirá num afastamento sem crime da Presidenta Dilma. Tudo isso sob os auspícios da mídia, com cobertura completamente ao vivo, parcial e militando pela oposição. A derrota, a se confirmar, representará um duro golpe contra um espectro político no cenário nacional, será equivalente à queda do muro de Berlim, tolo aqueles que se acham impunes ou vencedores com a derrocada do PT.

A questão que se impõe, nesse exíguo tempo, para a militância, é mais uma vez derrotá-los nas ruas, no parlamento e seguir em frente, reconstruir as pontes e formar novos quadros, respeitando os velhos, aceitando seus erros e acertos, porque a vida é bem mais complexa do que pensamos.