Guerra nas Estrelas – A Força do Mito.

A Força de um Mito ressurge
A Força de um Mito ressurge

“A história do filme tem a ver com uma operação de princípios, não com esta nação contra aquela. As máscaras de monstros, usadas pelos atores de Guerra nas estrelas, representam a verdadeira força monstruosa, no mundo moderno” (Joseph Campbell, O Poder do Mito, trecho sobre Guerra nas Estrelas).

 

A estreia do filme VII de Guerra nas Estrelas é um marco para os fãs e admiradores de tão expressiva saga cinematográfica, que tanto me encanta por mil razões. A primeira delas, é que aos 14 anos fui pela primeira vez sozinho ao cinema (Cine Diogo, em Fortaleza), ver o filme VI, o Retorno de Jedi. Até hoje, todo aquele ritual de ir, de comprar ingresso, assistir ao filme, não saiu da minha memória, até o cheiro da pipoca, que não pude comprar, parece no ar.

Depois, já morando em São Paulo, no começo dos anos de 1990, vi a longa conversa entre Joseph Campbell e Bill Moyers, sobre Mitos e Mitologia, no mundo atual (a entrevista foi feita entre 1985 e 1986). Depois virou um belo livro, “O Poder do Mito”, muito mais completo do que a minissérie mostrada pela PBS, depois, aqui no Brasil, pela TV Cultura.

Um dos temas daquela conversa foi sobre a construção e o significado mitológico dos filmes e personagens de Guerra nas Estrelas Surgiu ali uma visão interessantíssima, com rara precisão sobre o papel do herói, do mito e mitologema, que me fez rever e estudar mais, o grandioso filme, agora sob novas “lentes”. Abaixo segue o link para baixar o livro, mas podemos saborear esse trecho tão significativo:

“CAMPBELL: Quando a máscara de Darth Vader é retirada, você vê um rosto informe, de alguém que não se desenvolveu como indivíduo humano. O que se vê é uma espécie de fase indiferenciada, estranha e digna de pena.

MOYERS: Qual é o significado disso?

CAMPBELL: Darth Vader não desenvolveu a própria humanidade. É um robô. É um burocrata, vive não nos seus próprios termos, mas nos termos de um sistema imposto. Este é o perigo que hoje enfrentamos, como ameaça às nossas vidas. O sistema vai conseguir achatá-lo e negar a sua própria humanidade, ou você conseguirá utilizar se dele para atingir propósitos humanos? Como se relacionar com o sistema de modo a não o ficar servindo compulsivamente? Não adianta tentar mudá-lo em função das suas concepções ou das minhas. O momento histórico subjacente a ele é grandioso demais para que algo realmente significativo resulte desse tipo de ação. O que é preciso é aprender a viver no tempo que nos coube viver, como verdadeiros seres humanos. Isso é o que vale, e pode ser feito.”

Olhando como um todo, devo dizer que Guerra nas Estrelas é uma série que efetivamente tem seu núcleo nos filmes iniciais, que são os IV (Uma Nova Esperança, 1977), V (O Império contra-ataca, 1980) e VI (O Retorno de Jedi, 1983). Ali reside o coração do mito, é como se estivéssemos diante da Ilíada, do nono ano da guera de Tróia, que é apenas um longo episódio, também conhecido como a “Ira de Aquiles”. Nada precisamos saber de antes ou depois da Ilíada, pois ela pulsa tão forte que não há o que complementar.

Assim, acredito, que os episódios I (A ameça fantasma, 1999), II (O ataque dos Clones, 2002) e III (A vingança dos Sith, 2005), por mais grandiosos que sejam, não alteram a essência da ideia inicial, pouco importa de ela começou “no meio”, a concepção genial se fecha ali (IV, V e VI). Os mais radicais repudiam os filmes recentes, como um golpe comercial, redundante e com uma didática infantil. Alguns até admitem que esse novo filme tem mais fidelidade à ideia inicial.

Fico no meio do caminho, os três primeiros filmes, para mim, estamos diante de toda a ideia mitológica concentrada, por uma série de detalhes, desde a criação artística e aos efeitos especiais quase artesanais, que no final dos anos de 1970 e início dos anos de 1980, davam passos iniciais, ainda valia a força da interpretação e a saída criativa dos cenários e uma montagem espetacular. George Lucas, depois Spilberg deram o horizonte para essa nova indústria, sem esquecer a espetacular montagem e filmagem de Blade Runner, de Ridley Scott.

Os filmes I à III são interessantes, técnica apurada, abusam de efeitos especiais, mas reduzem a estória e os personagens. O impacto é bem menor, não há como comparar, ou mesmo achar que fazem parte de uma mesma mitologia. Entretanto, não posso deixar de reconhecer seu valor, sua beleza e criatividade, dos cenários grandiosos, frutos de uma indústria bem desenvolvida, ainda que muitas vezes em detrimento à arte.

Sobre o novo filme, O despertar da Força, George Lucas, não comanda mais a franquia, vendeu seu estúdio por incríveis quatro bilhões de dólares. Virou um consultor, a direção ficou com JJ Abrams (Criador das séries de TV Lost (2004 – 2010), Felicity (1998 – 2002) e Alias: Condinome Perigo (2001 – 2006, no cinema dirigiu Missão Impossível 3). A missão é quase impossível, fazer renascer uma grande história, ir além dos bilhões de bilheteria garantida, pois seria visto independente de qualquer resultado.

A produção é extremamente competente, dosando os efeitos especiais, mesclando os efeitos mais antigos com os efeitos mais novos, há alguns momentos de vídeo games (também antigos e novos), mas privilegiou a interpretação, com um grupo de novos atores e personagens, resgatando também velhos (velhos mesmos) personagens, o que parece dá um ar de nostalgia, boa, quando se ver Hans Solo (Harrison Ford) ou a Leia (Carrie Fisher), mais ainda com C-3PO, R2-D2 e Chewbacca.

Há uma promessa clara de uma trilogia mais densa e com boas surpresas, o novo episódio é muito superior a qualquer um dos três últimos, sem dúvida. Vale a pena ver mais uma vez, o prazer é renovado, mesmo que não consiga entrar no ambiente mitológico inicial, mas há boas referências aos ritos iniciáticos dos heróis, em descidas (catábase) às cavernas como também a subida (anábase) na escada celeste (observem como a cena lembra a capa do álbum Led Zeppelin IV).

A conferir os próximos.

joseph_campbell_ o_poder_do_mito

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