A Venezuela Sem Chávez

 

Grafite em Caracas: Imagem Eternizada Foto: Jorge Silva / Reuters

 

A incrível comoção popular, na Venezuela, após o anúncio da morte, real, de Hugo Chávez, demonstrou ao mundo o quanto o líder era amado pelo seu povo, poucas vezes na vida, vi algo tão grandioso e emocionante. As pessoas nas ruas com fotos, cartazes, com qualquer coisa que as fizesse lembrar do Presidente, que partiu, ainda no exercício de seu mandato, entraria no quarto mandato, depois de uma dura campanha eleitoral, já acometido da doença, se reergueu e foi ao embate, vencendo mais uma vez as velhas oligarquias apoiadas pelos EUA.

No dia seguinte, do comunicado oficial da morte de Chávez, escrevi um artigo aqui (A Morte e As Mortes de Hugo Chávez ), tentando me equilibrar entre a emoção causada pelas  pessoas mais simples ali chorando, com uma visão mais crítica sobre o legado do Presidente. Sem cair nas facilidades das muitas obviedades sobre mito/herói, sem deixar de reconhecer seus méritos, mas também apontado seus defeitos e problemas, em particular o personalismo e o apego ao poder, a longevidade no governo, como se apenas ele pudesse exercer o mandato.

A questão que se impõe agora é saber se a revolução bolivariana, como na Venezuela se define o governo de Hugo Chávez, efetivamente é um fenômeno circunscrito a ele, ou preparou sucessores e o povo para continuidade no poder. São dúvidas mais do que justas, em particular depois de governos seguidos e centralizados na figura de um homem, quando pouco se enxerga o movimento mais amplo, até mesmo de uma conformação política mais sólida e restrita como um partido, no caso o PSUV ( Partido Socialista Unido da Venezuela).

Quem tocará em frente o projeto, terá energia e aceitação para que se aprofunde as mudanças? Quais os acertos de rotas serão feitos? Qual peso da imagem de Chávez terá no sucessor? Será um governo unipessoal ou mais coletivo? O líder que desponta, Nicólas Maduro, tem capacidade de se equilibrar entre, o que foi Chávez e o que se precisa agora? São as dúvidas que se encerra, para alguém, aqui distante do processo diário do país tenta entender e comentar. Lembro que deve ter sido a mesma dúvida de muita gente, quando Lula não tentou um terceiro mandato e propôs Dilma, quem era ela, o que faria, pois líderes tão fortes e carismáticos quando saem, deixam um vazio e carrega-se de incertezas sobre que os sucede.

O que é certo é que a Venezuela começou, com Chávez, um processo histórico de independência efetiva, com prioridade clara de mudar a realidade do seu povo, que não pode retroceder. As imensas reservas de petróleo, entre as maiores do mundo, a extrema proximidade territorial dos EUA e sua enorme dependência do Petróleo, naturalmente fez da Venezuela alvo prioritário. Mesmo com a tensão nestes 14 anos, nenhum momento o fluxo do combustível foi cortado, mas, o que se fazia com os ganhos comercial houve efetiva mudanças e, isto, não deve ser dá conta dos EUA o que se faz, ele não pode e nem deve tutelar os países, nem tentar intervir, direta ou indiretamente, nos destinos dos venezuelanos, mexicanos ou brasileiro.

O apoio dos EUA ao golpe em 2002, que tentou derrubar Chávez, o financiamento à oposição nas eleições em 2006 e 2012, radicalizou ainda mais o processo interno. As novas eleições, agora em 2013, já sem Chávez, será a dura prova para a relação dos países. É óbvio que a Venezuela é estratégica aos interesses particulares dos EUA, mas o destino dos venezuelanos não pode ser submetido aos tais interesses. Penso que, confirmado pelas urnas, Nicólas Maduro, poderá negociar um novo acordo com os EUA, distensionando as relações, pois, é vital à Venezuela o comércio com os EUA. Ano passado vendeu 38,7 bilhões aos EUA e comprou 17 Bilhões, é quase 20% do PIB, nada desprezível, sendo o petróleo o carro chefe desta relação.

O Brasil, que cumpriu papel fundamental para equilibrar e evitar maiores desgastes, além de ser outro grande parceiro comercial da Venezuela, será novamente fiador desta transição, dando estabilidade e apaziguando o processo. O legado  de Chávez será respeitado, mas as condições serão mais dura, olhando daqui à distância, pois seu personalismo pode ter eclipsado os novos líderes, agora, órfãos, terão que fazer por si, tocar o país e a história.

Ficamos na torcida.

5 thoughts on “A Venezuela Sem Chávez”

  1. Acho que Maduro vai vencer de lavada, até com comparecimento maior do que nas últimas eleições do Chávez. Parece difícil um retrocesso lá. Foi inteligente a decisão de convocar novo pleito em tão pouco tempo, a presença do comandante ainda tão fresca…

    1. Mari,

      Nem ponho em dúvida a vitória de Maduro, mas, o que me preocupa é sua capacidade de lidar com o legado de Chávez, se está preparado realmente para continuar em frente, a incerteza advém da forma como era conduzida a Venezuela, com apenas um no poder.

      Arnobio

  2. Arnobio, não podemos esquecer que Maduro tem um partido forte para lhe dar respaldo, acredito que isso possa fazer a diferença neste período de transição.

  3. Morei na Venezuela durante todo 99, quando Chavéz assumiu o poder. A esperança do povo venezuelano só não era maior que a ira das elites locais. Passados todos esses anos, grande parte da esperança daquele povo se concretizou (diminuição da miséria, principalmente) mas a ira das elites está cada vez mais longe de se aplacar. Que as instituições democráticas prevaleçam e o caminho venezuelano rumo à justiça social siga com segurança e determinação.

  4. Senti uma forte tristeza com a morte de Hugo Vhávez pois via ali um revolucionário. Não um homem de esquerda no poder mas a esquerda no poder, o povo excluído como verdadeiro objetivo político de um governo. Vejo algumas pessoas na esquerda considerada inteletualizada criticando a comoção dos chavistas com desdém ou desqualificando gente de esquerda ao redor do mundo que admirava o que foi conquistado por esse povo. Citam o autoritarismo ou a falta de democracia como razão do repúdio ao chavismo sem ao menos considerar o contexto político histórico do país. Ali estava em curso um processo de esquerda que era o mais combatido do mundo, mais que Cuba. Não defendo regimes autoritários e esperava que Chávez já tivesse bem antes preparado um sucessor. Mas não me posiciono contra o que aconteceu na Venezuela nesse 14 anos onde todo o dinheiro obtido com a exploração de sua maior riqueza natural foi aplicado em benefícios sociais. Talvez isso explique o humano mar vermelho pelas ruas de Caracas e o peito doído da maior parte da esquerda mundial. Só não consigo entender como aqueles que se consideram intelectuais privilegiados – que se acham uma esquerda superior – desprezem o platonismo, que afirma o conhecimento pleno só ser possível se houver conjugação entre razão e vontade, intelecto e emoção, inteligência e amor.

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