O Dia Em Que Vi o Papa

 

O Papa João Paulo II e uma multidão no Castelão, Fortaleza 09/07/1980

Em 1980, Eu ainda morava na pequena Bela Cruz, uma cidade ao leste de Fortaleza, próximo da hoje famosa Jericoacoara. Aquela pequena cidade, abrigava nossa família há séculos, quando ainda era um vilarejo, meu avô paterno resolveu mudar da fazenda Santa Maria, para freguesia ou povoado maior, pois ainda não virara cidade/município, nos de 1940. Quando, virou finalmente cidade no final dos anos 50.

A relação de fé e amizade com o padre Odécio, fez com que os filhos e alguns netos(Eu inclusive) nos tornássemos coroinha, sacristão, motorista e tudo mais que o pároco precisasse. Meu pai fez de tudo na paroquia, ainda garoto, foi acólito(coroinha) e motorista, era um prazer servir ao amigo do meu avô. Temos dezenas de histórias extremamente engraçadas com o Padre Odécio, quem sabe conte umas aqui. Era uma época muito diferente, em que as autoridades locais eram:o padre, 0 prefeito e, se tivesse, o gerente do Banco. Em casa, meu irmão mais velho, depois Eu, fomos seguir a tradição de servir o padre, para orgulho deles, e para meu azar perdia o Daniel Boone, no fim da tarde.

Quando se anunciou que um Papa, imaginem vocês que importância, iria visitar o Brasil, passando inclusive por Fortaleza, meu pai decidiu nos levar para vê-lo. Fomos todos, era mês de julho, férias escolares, chegamos na terça, dia 08 de julho. Na quarta pela manhã, muito cedo, fomos ao local que o “Papa-Móvel” passaria, ficamos numa calçada da Av Duque de Caxias na Esquina com a Rua Floriano Peixoto, um calor de rachar o coco, ainda não tinha completado os 11 anos e tudo era novidade, a cidade, aquele povo todo coalhado nas ruas, nem entendia direito o que se passava.

Naquele dia falecera no Rio de Janeiro, Vinicius de Moraes, um sujeito ao nosso lado com um rádio alto e ouvi a notícia e as homenagens, tocando suas músicas, até que alivia aquela aflição porque a sua santidade não chegava nunca. A bexiga apertava mas era proibido sair ou atravessar a rua, ninguém podia perder seu lugar, nos dias de hoje vocês já ficam pensando em protetor solar, naquela época era aguentar o solzão mesmo. Os mais velhos conversavam sobre o Papa, diziam que era santo, que o visse, quem sabe não era perdoado, fiquei empolgado, vou rezar mais forte ainda, vou ter menos pecado e nem vou ter que ouvir os “conselhos do Padre Odécio”.

A manhã se arrastava, qualquer carro que vinha era um alvoroço, é o papa, não é, ainda sentava na guia triste, com cada alarme falso. A cara vermelha que doía, a fome apertando, mas o homem não aparecia nunca. O rádio dizia, o avião tá no Aeroporto Pinto Martins, agora ele beijou o solo da cidade, o povão vibrava. Nós ali, com esperança que viesse logo, mas não podia reclamar, era feio e quem sabe, até pecado, pior, mortal. Como tinha medo. Depois de uma 6 ou 7 horas de muita espera, começou um grande alvoroço, lá distante no começo da Duque de Caxias o povo se levanta e se agita.

Eu, muito pequeno, tento um lugar melhor, lá vem o papa, o cortejo aberto por motos grandes e apitando alto, mais atrás uns carros de polícia, finalmente o tal papa-móvel, o vidro transparente, com uma figura com uma roupa branca, quase confundia com a cor do homem, mas seu rosto era muito vermelho, o sol forte do Brasil, pensei. O carro se aproximou eu vendo o Papa, era ele, ali de pertinho, que emoção danada, os mais velhos se ajoelhavam e choravam, aquele homem parecia sereno, com um sorriso acenava para multidão. Certeza que não demorou 15 segundos, mas, podia contar aos amigos da minha cidade, Eu vi o Papa.

Os anos me afastaram não apenas daquele, mas de outros Papas, mas imagem, sem dúvida, foi marcante, viva até hoje. Naquele mesmo dia, o Papa foi ao Castelão, numa gigantesca missa, de mais de 180 mil pessoas. Uma música, dedicada ao papa, me acompanhou nos estádios, a torcida do Ceará, quando o time estava jogando mal, cantava no castelão, “a bença João de Deus”, e, acreditem, o time melhorava, risos, só podia ser milagre. Soube que a torcida do Botafogo entoava este canto, até meus amigos comunas também, com todo rigor.

4 thoughts on “O Dia Em Que Vi o Papa”

  1. Nobinho…todos juntos, quanta emoção, a partir daí, veio a decisão de morarmos aqui em Fortaleza, nos apaixonamos pelo famoso bairro Jose Walter, aqui construímos uma nova vida, na cidade grande. Os anos passaram, mas guardamos as emoções desse dia que você tão bem descreveu.

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