Crise 2.0: Alemanha Parou

 

Efeito Bumerangue: A crise vai punir Merkel, nem adianta fazer beicinho

 

“De muito gorda a porca já não anda

De muito usada a faca já não corta” ( Cálice – Chico Buarque)

 

A Alemanha, de tanto forçar a barra, punindo de forma impiedosa seus parceiros da UE, agora começa a pagar o preço da política recessiva que impôs a eles, via Troika. Os números do último trimestre e a perspectiva do próximo, já mostra que a máquina poderosa vem trabalhando em ritmo lento. Aqui, na série sobre a Crise 2.0, desde muito tempo alertamos para os limites da política de austeridade, que ela poderia volta feito bumerangue para quem a lança, não há como escapar dos seus efeitos negativos.

Lembro que discutimo muito aqui a irracionalidade de uma política que privilegiava os imensos superávits comerciais e na balança de pagamentos, mostrando que o tamanho do déficit do sul europeu equivalia em exatidão aos gordos lucros alemães. Apenas Espanha, tem um déficit de balança com a Alemanha em mais de 300 bilhões desde lançamento do Euro, somados todos os países da UE esta riqueza alemã supera a 1 trilhão de Euros, com seus parceiros. Mas, se prefere acreditar no Mito de que a Alemanha fez seu ajuste, seus sacrifícios, encobrindo a realidade, que estes esforços só obteve sucesso devido ao grande desequilíbrio comercial dentro da UE.

Segundo, Jamil Chade, o excelente correspondente do Estadão em Zurique, a máquina está parando, pois “a crise dá claros sinais de contaminar a Alemanha da chanceler Angela Merkel, já fazendo a Europa registrar a maior retração de sua atividade industrial desde o auge da crise, em 2009. A publicação de estatísticas nesta quarta-feira por diferentes institutos europeus indicou que a recessão na zona do euro no final de 2012 pode estar se aprofundando e que uma recuperação esperada para 2013 poderia levar ainda mais tempo para ocorrer. No último trimestre do ano, a projeção é de uma contração do PIB europeu de mais de 0,5%”.

O que coloca em pânico o restante da UE, e tem como centro dos debates entre os economistas apontando como “grande preocupação se refere à Alemanha e às indicações de que o país poderia estar caminhando para uma estagnação, o que afetaria toda a Europa. A confiança empresarial alemã registrou ontem a maior contração em mais de dois anos. “As nuvens sobre a economia alemã estão se escurecendo,” alertou Hans Sinn, chefe da Ifo, a agência que promove o levantamento sobre o sentimento empresarial na maior economia da UE. Outubro, segundo ele, é o sexto mês consecutivo de queda na confiança do empresariado alemão. A redução fez com que o índice chegasse ao nível mais baixo desde fevereiro de 2010. A queda no índice foi inesperada, o que acabou pesando nas bolsas de valores pelo continente. O euro também perdeu força. Ao contrário de vários países da zona do euro, a Alemanha vinha resistindo a crise, em grande parte graças à competitividade de suas exportações.

E o caminho parece claro : “Os riscos de uma recessão na Alemanha estão crescendo”, indicou o banco ING. Depois de crescer 4,2% em 2010 e 3% em 2011, a projeção apontava para uma expansão de 0,8% neste ano. Mas dados da empresa Markit apontaram ontem para uma séria contração da produção industrial alemã, afetando todo o continente. O levantamento indicou que o índice europeu caiu para 45,8 pontos em outubro. Taxas acima de 50 representam uma expansão no PIB e nas atividades industriais dos países. Mas a queda é a pior em 40 meses. De forma inesperada, o índice de atividade industrial na maior economia da zona do euro caiu para 48,1 pontos e a desaceleração mostrou que a crise que está afetando o sul da Europa contamina a maior economia do bloco num ritmo mais rápido que se imaginava”.

O momento não poderia ser pior, pois a Chanceler abriu formalmente o período eleitoral, seu mandato corre o risco de não ser renovado, mesmo sendo favorita, a recessão põe em risco o seu “sucesso”. O carro-chefe de sua popularidade é a fortaleza alemã, sua resistência à crise, mas o cenário mudou e “O temor é de que uma contração da economia alemã volte a jogar todo o continente em um estado de alerta e abafar qualquer tentativa de retomada. Para Tim Moore, economista da Markit, um dos motivos foi a queda das exportações, por conta da desaceleração na Ásia e a redução na aquisição de bens de capital da Alemanha.

A redução nas vendas de carros também pesou. Ontem, a Volkswagen anunciou que seus lucros sofreram uma queda de 20% no trimestre. “A piora constante da situação econômica na Europa ocidental pressionou a indústria automotiva” entre julho e setembro, afirmou a montadora em seu relatório financeiro. Para a fabricante de artigos esportivos, Puma, não há outra saída senão começar a cortar custos. No terceiro trimestre, a empresa registrou uma queda de 85% nos lucros. A Siemens já indicou que deve promover novas demissões.

Era impossível que Merkel e os banqueiros alemães (seus chefes reais) não soubesse do risco que a política imposta à UE por eles não se tivesse retorno, a base da força alemã se dá justamente no intenso comércio de produtos com alto valor agregado e com a UE, o mercado é cativo para os que são membros, mas se boa parte dos países entram em crise, óbvio que a Alemanha também pagará o preço. O problema é que o preço pode ser bem maior, pois o capital alemão, que financiou a ciranda de consumo, agora não tem retorno, o calote grego, português e o provável espanhol, reduz as chances de continuar a retroalimentação da economia alemã.

O castigo pode vir à galope, confirmando a parada, Merkel, será a primeira na linha que será limada, quem sabe, assim, se abra um novo momento de repactuação europeu. Fiquemos atentos.

 

0 thoughts on “Crise 2.0: Alemanha Parou”

  1. E se o motor alemão para, a UE inteira vem abaixo como um castelo de cartas. Triste, muito triste. Além de preocupada com a situação do BR. Imagina um continente inteiro vindo abaixo

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