Crise 2.0: UE – Crise está apenas na Metade

 

Pessoas esperam os restos dos supermercados em Madri

É sempre válido repetir algumas questões que balizam estes escritos de Economia Política, em particular, aqui na série sobre a Crise 2.0, a primeira delas e principal é o centro da crise, mas precisamente a reafirmação de que ela acontece no ápice do Capital, jamais em baixa, é quando todas as condições melhores da economia acontecem, ela explode, ou seja, na SuperProdução de Capital, o motivo é bem simples, a taxa de lucro foi comprimida, alta de empregos e salários, tensionam para baixo a lucratividade. A crise é parte fundamental do ciclo do Capital, não é estranha a ele, não é uma anormalidade, sim, componente do processo.

 

Esta reafirmação se dá, justamente porque venho insistindo, como os que me leem, para entendermos, juntos, os movimentos das classes dominantes, que aparentemente são cruéis demais( e são), mas que na verdade são os movimentos essenciais para que o Capital se recomponha. A Crise abre a época da revolução, principalmente aquelas de grande monta, foi assim em 1871, com a comuna de Paris, em 1917 com a Revolução Russa. Mas quando estas vagas históricas não são aproveitadas, o capital empurra os seus ajustes ao extremo, para que tenha uma novo patamar em sua taxa de lucro.

 

Como escrevi outras vezes, a crise se dá em momento anterior aos fenômenos que hora assistimos, nos EUA aconteceu em 2005, na Europa em 2008. Nos EUA aparentemente, para o observador comum, ou o economista vulgar, ela aconteceu em 2008, com a quebra dos bancos, ou na Europa, em 2011 com a quebra generalizada de Portugal e Grécia, que se prolonga agora com a falência da Espanha. Isto não é uma questão secundária, saber o momento que o Capital atinge seu ápice, ao contrário é fundamental, para quem quer agir de forma coerente e aproveitar o momento em que o capital está em recomposição, portanto mais frágil.

 

Algumas observações e conclusões são feitas com base na experiência e intuitiva, a confirmação vem depois, como demonstrei no gráficos sobre os EUA e sobre Europa em posts anteriores. Hoje a agência de classificação de riscos vem confirmar algumas de minhas conclusões, no seu relatório ela diz explicitamente que a Crise chegou na metade, que “a turbulência que atinge Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha desde 2008”. E são bem diretos, quanto aos objetivos: Segundo a agência, as reformas estruturais feitas até aqui não devolveram o equilíbrio necessário às economias da Europa, mas avançaram em áreas como a balança comercial e a competitividade do trabalho. A Moody’s elogia a queda do custo da mão de obra na Espanha, mas adverte que a Itália ainda está longe de recuperar a competitividade”.  (Estadão, 22/08/2012)

 

Apenas mudaria a palavra competitividade para Lucratividade, mas o relatório vai mais fundo: “as reformas estruturais nos países periféricos da zona do euro melhoraram o quadro de turbulência, “mas ainda não resolveram totalmente os desequilíbrios externos que se desenvolveram nesses países antes da crise”, afirma a agência. “A correção está na melhor das hipóteses na metade, segundo cada país em questão, e poderá tomar ainda vários anos.” O documento da Moody’s serve também como panfleto em defesa das reformas estruturais na Europa – em linhas gerais marcadas por programas de privatização, redução do funcionalismo público, flexibilização do mercado de trabalho e redução do custo do trabalho. “Esta análise ilustra igualmente a importância fundamental das reformas estruturais para aumentar a competitividade de maneira sustentável”.

 

A lógica é a da queima imediata das forças produtivas, de forma acelerada, os programas são bem claros e radicais, a próxima cartada grega é o corte de 40 mil funcionários públicos, medida similar ao que a Espanha tomou. A morte do velho estado de bem estar social é o centro da luta, na Espanha o atendimento público será limitado, não mais universal, proibido ao estrangeiros, criando uma crise humanitária, o que já acontece na Grécia, com o aumento em mais de 1400% dos casos de doenças sexualmente transmissíveis. O corte também nas aposentadorias, nos salários, uma geração de sem tetos se forma nas maioria cidades destes países, pessoas que vivem dos restos dos supermercados.

 

Mesmo diante de todos estes retrocessos, pelo que se constata no relatório da Moody’s, ainda não chegamos à metade do processo de crise, que mais esforços de cortes serão necessários, o que apenas confirma o que estamos falando aqui, tem pelo menos um ano. A saída do Capital é esta, qual seria a outra alternativa?

0 thoughts on “Crise 2.0: UE – Crise está apenas na Metade”

  1. vi uma noticia dizendo que a GoldmanSachs acredita que a Espanha provavelmente pedirá o resgate em setembro,quando dividas à longo prazo vencem com juros de 4 bilhões de euros..Só não entendo o por que desse otimismo do mercado cobrando juros menores se a coisa só piora..

  2. Prezado Arnóbio
    O Fed está recomendando (hoje no WP) a emissão de moeda. Creio que o BCE deve adotar a mesma medida. Não creio que os BRICS e outros “gostem” dessas medidas. Talvez isso precipite uma Bolsa de Moedas para comercialização com queda parcial do acordo de Bretton Woods. Esse fator trará os déficits em c/c nos EUA e Europa para o primeiro plano das negociações. Não consigo ver solução do Capital para essas eventuais ocorrências. O Grupo que esta estudando a Bolsa de Moedas NÃO está considerando a participação do EURO nem do DÓLAR (essas moedas entrariam no mesmo jogo que as demais, sem privilégios). Pergunto: quais as consequências & possibilidades/probabilidades de sucessos nessas empreitadas dos BRICS?
    Grato, abração
    Castor

    1. Castor,

      Como não sei se você leu, mas escrevi uma série de posts apontando para contradição de um novo QE nos EUA e do BCE:
      1) Crise 2.0: A Recessão da Zona do Euro http://arnobiorocha.com.br/2012/08/14/crise-2-0-a-recessao-da-zona-do-euro/
      2) Crise 2.0: O Risco EUA http://arnobiorocha.com.br/2012/07/19/crise-2-0-o-risco-eua/
      3) Crise 2.0: A Farsa das”Lições de Casa” Alemãs
      4) Crise 2.0: Alemanha – Todos dizem Eu te Amo!
      5) Crise 2.0: EUA, a Fraca Recuperação e
      6) Crise 2.0: EUA, sete anos depois

      Em síntese os QE significam mais achatamento dos salários devido a componente inflacionária, mas, por outro lado, barateia artificialmente os produtos made in usa/Alemanha, pressionando os BRICS. Sua questão é a central, mas reduziriam ainda mais: Qual o limite dos BRICS?

      Arnobio

  3. Prezado Arnóbio
    Li sim, mas continuo com dúvida(s). Os BRICS não tem visão (ou necessidade) uniforme da situação. Se chutarem o “pau-da-barraca” com a Bolsa de Moedas enfrentarão imediata fúria financeira dos EUA/Zona do Euro. Se fizerem a transição lenta talvez não cheguem ao fim do processo… Pois sempre haverá a questão da competitividade e a China, certamente, será a primeira a “roer a corda” (lembrar que ela deve finalizar 2012 com perto de 3 triUS$ em bônus do tesouro americano que serão desgastados pelos QE eminentes), pois precisa desesperadamente exportar para manter níveis mínimos de crescimento econômico. A Rússia idem, só que com o produto ENERGIA e seu respectivo (quase)monopólio europeu. Toda a barafunda geopolítica do OM leva a essa conclusão. A China e a Rússia sabem disso.
    O Brasil e o MERCOSUL em geral dispõem, ainda, de potencial mercado interno, mas ficarão severamente comprometidos com os CUSTOS locais… e cada vez mais e mais. Até quando?
    Esse mesmo MERCOSUL, Brasil incluído, está abarrotado de Bônus do Tesouro dos EUA. Os QE desvalorizarão ainda mais suas reservas líquidas. Até quando aguentarão?
    É sobre estas questões que gostaria que você discorressae com mais detalhes.
    Abração
    Castor

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