Crise 2.0: Pessimismo Global


Até os robôs estão lentos na Crise

 

 

O maior desafio que encontro para escrever esta série sobre a Crise da Economia Mundial, que denominamos de Crise 2.0, é conseguir produzi textos parciais, sobre situações locais,  sem se perder da visão global, ou seja, da dinâmica da Crise, dos rumos que a Economia e a Política apontam. Poucos leram todos os textos, o que facilitaria a compreensão geral, então, minha missão é escrever novos posts com este caráter geral, mesmo quando se tratar de questão particular. É um baita desafio sem dúvida, pensar o conjunto de processos, dentro de sistema global.

 

Depois de uma semana dedicado intensamente à reunião de Cúpula do Euro, com seus importantes desdobramentos, grandes decisões, seus impactos imediatos, as dúvidas que dela se seguiu, as várias interpretações, chegamos a conclusão que a Europa voltou a debater sem que a Alemanha silencie a todos. Ao mesmo tempo, esta nova perspectiva lança um novo desafio aos governos locais, o deslocamento, ainda incerto, rumo a uma unificação maior, exige, por exemplo, um outro referendo na Alemanha, na França, Espanha, enfim em todo o conjunto do Euro. Mas numa conjuntura de Crise os resultados são temerários demais, eis o ponto crucial: Novos acordos de grande monta, exige uma perda maior de soberania, portanto, mudança de constituições locais, como fazer no meio de uma Crise?

 

Mesmo dando um certo fôlego, as decisões da cúpula, são confrontadas com a onda de pessimismo global, parece um jogo, um circulo vicioso, em que as notícias ruins, abafam as boas, e aquelas cuidam de piorar mais ainda o cenário. O Instituto de Finanças Internacional(IIF) ligado aos bancos de investimentos soltou seu relatório, na segunda feira, carregado de pessimismo, que em síntese diz: Teremos mais crise, pois houve piora da crise das dívidas da Zona do Euro, problemas ficais nos EUA e uma alta dos preços de Petróleo.

 

IIF e o Mundo

 

Leiamos o que nos diz a agência Dow Jones(via Estadão), sobre o relatório: “Embora a recente queda dos preços do petróleo e relaxamentos adicionais das políticas dos bancos centrais deem apoio á atividade no curto prazo, o arrastar-se contínuo da crise na zona do euro e a ansiedade crescente sobre o ‘abismo fiscal’ nos EUA vão continuar a restringir o crescimento no futuro”, diz o relatório. Abismo fiscal é como tem sido chamada a situação em que os EUA poderão se encontrar no começo de 2013, quando deixam de vigorar várias reduções temporárias e isenções de impostos, ao mesmo tempo que cortes de gastos de mais de US$ 1 trilhão entrarão em vigor automaticamente, se o Congresso não chegar a um acordo para mudar a política tributária”.


Parece claro que os itens centrais da Crise continuam presentes, sem uma solução de continuidade, o acordo da Zona do Euro, precisa se tornar realidade, para que mude a atual tendência. Por outro lado, os números do crescimento dos Eua começam a fazer água, o valor do PIB é pouco maior do que o de 2005(descontada a inflação do período), ainda não há uma recuperação clara, tratamos desta questão no post Crise 2.0: Desigualdades emperram crescimento dos EUA, apontamos que a desigualdade aumentou o fosso social, com um empobrecimento geral da classe média, nestes últimos 6 anos.

 

O relatório mostra ainda que o conjunto da atividade econômica mundial, é de queda: “a Europa já está diante de uma recessão e os indicadores recentes dos EUA levantam dúvidas sobre o ritmo de recuperação da economia norte-americana. E agora essa debilidade está se alastrando e chegando a afetar algumas economias emergentes, como a da Índia.[…] a incerteza que cerca a situação na zona do euro e a desaceleração global resultaram em vários contágios, entre eles a redução do financiamento externo por parte de bancos estrangeiros e os recuos nos mercados regionais de bônus e de ações. O documento nota que as fugas de capital atingiram algumas economias mais duramente do que outras, especialmente aquelas que têm déficits em conta corrente maiores; como resultado, a moeda da Índia caiu a níveis recorde de baixa nos últimos meses“.

 

Grifei estes pontos mais importantes para chamar a atenção de algo que venho falando a meses, a redução dos financiamentos externos atinge diretamente países com baixa poupança interna, em particular os BRICS, já havia comentado o relatório do BIS, agora reforçado pelo IIF, até sobre a China há perspectivas negativas: “O relatório também diz que até mesmo a China está mostrando vulnerabilidades, como mostrou o índice de atividade industrial dos gerentes de compras referente a junho, divulgado nesta segunda-feira. Ao mesmo tempo, a China permitiu que sua taxa de câmbio administrada tivesse uma apreciação de cerca de 1% até agora neste ano, em resposta a exportações fracas”.

 

Por fim diz ainda relatório que alguns países estão relaxando a política monetária, como Brasil, Índia e Filipinas, o que eles acham que ”e o caminho correto “Diante desse cenário, mais relaxamento monetário em todo o mundo será necessário para apoiar o crescimento“. Ao contrário dos nossos “humoristas”, digo, Economistas locais, que ainda não largaram os manuais da escola de Chicago, o pessoal do IIF, entendeu que não adianta rigor fiscal, sem crescimento o terremoto é muito pior.

 

FMI e os EUA

 

Também é importante verificar o relatório do FMI sobre os EUA, publicado pela BBC( via Estadão), mais uma vez é cheio de pessimismo: “O FMI (Fundo Monetário Internacional) rebaixou ligeiramente as suas previsões de crescimento da economia americana para este ano e o próximo, ressaltando seu pessimismo no relatório anual sobre a economia dos Estados Unidos, divulgado nesta terça-feira. Segundo as novas estimativas, a maior economia do planeta crescerá 2% em 2012 e 2,25% em 2013 – um pouco abaixo das últimas previsões divulgadas menos de três meses atrás, em abril, que eram de 2,1% e 2,4%, respectivamente.

 

A redução é mínima, mas o que preocupa é a mudança de expectativa, de antes esperança para um clima de que não há uma recuperação consolidada, o que prejudica a economia mundial como um todo:”Segundo o FMI, a recuperação americana permanece “morna” e “sujeita a riscos elevados”, principalmente por causa do risco de contágio pela crise na zona do euro e do chamado “abismo fiscal” – uma série de cortes de impostos e incentivos fiscais que terminarão no fim deste ano, a não ser
que o Congresso americano chegue à decisão de prorrogá-los.
Nosso cenário central assume que o setor fiscal restringirá o crescimento entre 1 a 1,25 ponto percentual em 2012 e 2013, respectivamente, por causa das medidas de estímulo que expirarão”, avalia o FMI.

 

Hora, a bola da vez, se chama “Abismo Fiscal”, os incentivos para voltar a crescer estão chegando ao fim, sem que a economia tenha se elevado como um todo:”Analistas estimam que o total de mecanismos que terminariam chegaria a US$ 700 bilhões (US$ 1,3 trilhão) só no ano que vem. “Uma consolidação fiscal de cerca de 4% do PIB em 2013 (em linha com a lei atual) pode reduzir o crescimento anual para bem abaixo de 1%, com crescimento negativo no início do ano que vem e repercussões negativas em uma economia mundial já frágil”, alerta o relatório. “É crucial garantir um passo de ajuste fiscal no curto prazo que apoie a recuperação, removendo a ameaça de um grande ajuste fiscal em 2013, e adotar planos de médio prazo para restaurar a sustentabilidade fiscal”, recomendou o Fundo”.

 

A luta pelo crescimento é mundial, quem não acompanha o que acontece fora, fica à mercê da nossa mídia, parece que o Brasil faz tudo errado, o que é mais incrível, por exemplo, o caderno de economia do Estadão, no tocante a economia mundial, desmente todo dia a parte de Economia Nacional, pior, desmoraliza o caderno de política e seus colunistas. A resposta para isto é simples, eles traduzem o que se escreve lá, não tem como modificar.

 

Só sobrou aos “Humoristas”, digo, economistas locais, a tosca ideologia decadente neoliberal.

 

0 thoughts on “Crise 2.0: Pessimismo Global”

  1. Bom dia, compa :)

    Há muito tempo insisto que as políticas de austeridade só fazem concentrar a riqueza e piorar cada vez mais a distribuição dos bens da vida. Não é preciso ir longe para compreender como funciona o mecanismo de austeridade, do Estado mínimo e tantas outros clichês neoliberais, nós sentimos isso na carne.

    Por outro lado, o discurso crescimentista – adotado por grande parte da esquerda no mundo, inclusive aqui – também não me convence. Não é que fico a dar razão a Boaventura S. Santos quando diz que é um paradoxo que a esquerda lute por um entre outros modelos de capitalismo, como resultado da hegemonia adquirida pelo Consenso de Washington.

    É que realmente não me convencem os cânones do crescimentismo. Primeiro, porque a escassez é um conceito econômico, de escala, talhado sobre fundamentos equivocados, que desconsidera a auto organização das formas de vida, implementando um modelo colonial e imperialista da materialização da felicidade e sustentabilidade da vida.

    Para mim e, nesse ponto creio que também pro velho Karl Marx, o nó gordio da questão reside no problema da distribuição, na partilha dos bens da vida, dentro daquilo que se pode apropriar. Uma justa distribuição – nos limites de auto organização das formas de vida – mostraria o quanto este planeta é abundante e acabaria com qualquer remissão neomalthusiana.

    O problema, me parece, e isto está muito em seu “perda da inocência” é o desencanto da esquerda que prefere lutar por um “capitalismo menos agressivo” cujo centro de luta está na redução da pobreza. O termo “pobreza” por sua vez deriva, atualmente, da fixação de um patamar de “renda” considerado incompatível para o consumo e acesso a bens da vida determinados por um modo/padrão de forma de vida considerado hegemônico em um dado meio social. Com depreciação e desprezo de toda e qualquer outra forma ou experiência de vida.

    Não há forma de “economia verde” que consiga resolver a equação da desigualdade porque não se trata de parar o crescimento do consumo canadense, p.ex., enquanto esperamos que o consumo brasileiro atinja os mesmos patamares. É uma equação onde um menos um não é igual a uma soma zero, extamente porque os operadores da equação não são da mesma ordem. Brasileiros não são canadenses. Deviam encontrar a sua própria forma de vida e não copiar a canadense.

    Mas essa entrega ao modelo de pensamento crescimentista nos conduz a um caminho diferente de nós mesmos, montamos as superestruturas sociais para dar conta de uma forma de vida alienígena, pior, determinada nos marcos do Consenso de Washington.

    “Crescer, incluir, preservar”, nada tenho contra a inclusão, tampouco com a preservação – que, de alguma forma considero redundante quando já falamos de inclusão na forma que a compreendo. Incluir, para mim, significa muito mais do que trazer parcelas inteiras da população para o paraíso do consumo, significa trazer à luz, estabelecer a coexistência de diferentes formas de vida. É dizer, não há que transformar favela em asfalto, mas sobretudo permitir a existência de uma ordem plural e não monista, reconhecer as diversas formas de organização da vida. Entender, finalmente, que os diversos valores só podem ser contados de forma cardinal, que não podem ser ordenados. Não possuindo uma forma ordenada, o modo de distribuição há que ser completamente diferente, desprezando-se qualquer cálculo de preferência ou utilitarista.

    Ainda há muito que caminhar, companheiro.

  2. Muito boa essa frase de que a editoria de economia desminta todo dia a de política. Uma pena que a de política nunca leia a de economia.

    Quanto ao “quantotempodura”, melhor mesmotem mais é que deixar 40 milhões mergulhados na pobreza e na miséria, seja qual for o conceito, passando fome no lixão. Para que jogá-los no capitalismo, seja qual for o conceito? Eu hein, comer três vezes por dia, ir à escola, comprar geladeira, tudo coisa desse capitalismo do demo, assistencialista e paternalista. Tem que deixar morrer de inanição até que a vanguarda sabida faça a revolução!

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