A Gota d'água que nos resta...

A Gota d’água que nos resta…

 

 

“Por favor

Deixe em paz meu coração

Que ele é um pote até aqui de mágoa

E qualquer desatenção, faça não

Pode ser a gota d’água”

( Gota D’água – Chico Buarque)

Desde ontem fiquei ruminando estes versos, cada vez que ouvia ou lia sobre a situação de idas e vindas de Erundina, mais a música soava nos meus ouvidos, a primeira parte é brilhante, define uma entrega, total, incondicional ao amor, sem chances para qualquer recuo, era a paixão na veia, na carne, o corpo que se doa, a alma, mas aí vem a decepção, certamente amorosa, imperdoável

“Já lhe dei meu corpo, minha alegria

Já estanquei meu sangue quando fervia

Olha a voz que me resta

Olha a veia que salta

Olha a gota que falta pro desfecho da festa

( Gota D’água – Chico Buarque)

O tempo vai curtindo os sentimentos, os anos seguem, mas aquela nota mental, permanece lá, pronta para ressurgir. Muda-se o comportamento – vira-se amigos, convive-se socialmente, partilha-se até alguns sonhos, que parecem comuns, mas não se apaga a mágoa, o rancor. Ele, o sentimento, se esconde, muda, vira, gira, mas não morre, a vida lhe prolonga a existência, à espreita, um dia ele virá à tona, no momento exato, o mais cruel, fatal, que o o outro lado esteja vulnerável, aí explode, uma doce vingança.

Aparentemente sem sentido, sem lógica, mas apenas quem o carrega, entende o por que de assim agir, é humano e terrível demais, mas é real, sincero. Para nós, parece mesquinho( e, é), mas é próprio e verdadeiro. Os efeito colaterais não importam, já não há sentido no que será amanhã, o longo e doce hoje, já basta. Por mais triste e raiva senti na hora, entendo perfeitamente o gesto, o aviso. Alguma coisa me dizia que isto ocorreria, pressentia algo grave, poderia não ser assim, mas aconteceria, mas como foi, o prazer é mais profundo, a sensação de gozo, prazer e alívio.

Infelizmente ou felizmente, não controlamos a vida e seus mistérios, mas podemos antever determinadas situações, esta é uma típica, que subestimamos o lado humano, emocional, irracional. Preferimos e acreditamos no racional, na superação, quase sempre isto não acontece. Nassif diz assim, sobre o caso : “foi terrivelmente individualista”, completo e corrijo: Ela foi terrivelmente humana.

Simplesmente não consigo ter raiva, apenas um vazio terrível. A vida segue…