Dalton Trevisan: A Fuga dos Holofotes

 

A vida peculiar de Dalton Trevisan - Foto: Edição/247

 

Neste tempo de internet, celebridades, ou melhor subs, instantâneas, li uma matéria sobre Dalton Trevisan, e achei estupenda. Ele acabou de ser premiado com a maior honraria da língua portuguesa, o Prêmio Camões, que é um justo reconhecimento de sua vasta obra. Aos 87 anos, vive em Curitiba quase clandestinamente, longe de holofotes, exercendo um belo direito de ser diferente, preservando sua vida de curiosos e caçadores de celebridades, neste caso, se aplica a ele. A própria matéria, da Revista Época, não conseguiu entrevista, se é que tentou entrevistá-lo.

 

A fama de recluso, longe até do amigos, levou ao apelido de “Vampiro de Curitiba”, criando todo um ar especial de mistério sobre sua personalidade, que torna ainda mais poderosa sua pena, seus escritos. Mas o que me chamou a maior atenção foi que ele simplesmente se recusa a ir à entrega do prêmio, por um fato que devemos pensar profundamente, de que o escritor é invisível, sua relação com o leitor é o que ele escreve, do outro lado é o que o leito ler, não cabendo “interação” maior.

 

Chegou-se a noticiar que a fundação que lhe deu o Prêmio tinha dificuldade em entregar-lhe os 270 mil reais, pois não era fácil encontrá-lo, é mito. Mas o fato real é que ele se comunica com a sua editora via telegrama, e que para chegar até a ele é via Editora, que lhe repassa. Ele se desloca ao local, que é perto de sua casa, por caminhos diferentes, recebe suas comunicações e devolve o que lhe pedem. Quase como um  agente secreto, fiquei imaginando a cena, não deixa de ser engraçado, neste tempo atual.

 

No Jornal Estado de S Paulo, o crítico literário Silviano Santiago, presidente do júri e colunista do Sabático, a escolha foi unânime. “Em primeiro lugar, pela contribuição dele à arte do conto. Não há dúvida de que temos uma belíssima tradição do conto no Brasil. E ele conseguiu uma voz muito pessoal.” Acrescentou ainda  Santiago, sobre o método de trabalhar a língua: “É um trabalho em prosa muito difícil, semelhante ao que se tem quando se faz um soneto, um poema curto. Mas no caso de Dalton, ele faz da dificuldade sua própria poética. A ponto de seus últimos contos serem praticamente poemas, haicais, tal a concisão, a secura, a necessidade de buscar o essencial.”

 

Por fim, o crítico nos fala sobre a reclusão auto-imposta pelo Escritos, diferindo da busca comum pela fama:  “Isso que é bonito no Dalton. Ele nunca gostou de holofote, nunca gostou de se apresentar na mídia. É um homem de 86 ou 87 anos, que dedicou sua vida inteira a fazer literatura longe de tudo. Ele não aparece, não quer aparecer, não dá entrevistas. A gente discutiu que, de certa forma, é a mídia que faz os escritores. Chegou o momento de ver quem escreve bem e quem está pondo para a frente a arte literária.”

 

Uma forma diferente e que serve para pensarmos sobre a extrema exposição que estamos nos submetendo, não restando quase nada de reserva.

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