Crônicas do Japão XVII: Kyoto IV – O caminho da Iluminação

A cidade de Kyoto combina magnificamente o passado glorioso de capital imperial por mais de 1000 anos com a preservação de seus templos de castelos com o desenvolvimento moderno, com belas avenidas, prédios novos e imponentes, dão ar a esta cidade de 1,5 milhões de habitantes.

Os posts anteriores foram dedicados aos templos históricos e marcantes, mas como falei anteriormente esta cidade tem 1200 templos suas avenidas e ruas sempre podem aparecer uma surpresa de passado medieval ao lado de prédios futuristas, convivendo lado a lado e a cultura sendo respeitada.

Esta coisa de respeitar o passado é tão impressionante que uma imensa avenida central em Kyoto de repente acaba e vira uma viela minúscula que lado a lado antigas casas medievais foram transformadas em mercado e restaurantes, uma coisa linda demais.

Vale a pena ver ainda três belíssimas edificações do passado, por sua grandiosidade e significado particular.

Heian

Heian Jingu Shrine

O castelo da dinastia Heian, fundadora da cidade, hoje conhecido como palácio das lanternas que até pouco tempo era usado como palácio de veraneio pela família imperial, tem um jardim majestoso que dizem que a própria imperatriz cuidava.

Por três séculos ele foi a sede política e administrativa do Japão, o conjunto de prédio que faziam parte do complexo era meticulosamente distribuído em salas privadas e salões de recepção que fazia uso o imperador no trato da administração pública. Num destes prédios era dedicado a residência e aposentos imperiais.

Heian Jingu Shrine Chinese Bridge

Após vários incêndios e mudanças de sede administrativa, uma parte apenas do antigo palácio foi reconstruído, dando uma visão da construção original, seu belo jardim, a combinação perfeita de flores, pedras, o lago. Causando contraste com as paredes brancas e as colunas vermelhas.

Heian Jingu Lily Pond

Nijo-Jo

Arquivo: Castle.jpg Nijo

O famoso castelo construído pelo Xogum Tokugawa no início do século XVII é uma obra de grande porte que impressiona e a engenharia, parte do complexo, são dois palácios o de Ninomaru e Honmaru, foi deslocada de outras cidades peças inteira como o pórtico gigantesco (Karamon) da entrada principal.

Arquivo: NinomaruPalace.jpg

O conjunto arquitetônico fica numa área central que ocupa 275 mil metros quadrados com 8 mil metros construídos e amplos jardins, fontes de pedras, pomares de cereja e ameixas. O mais belo destes jardins/lago é o Ninomaru, que foi delicadamente desenhado e executado por paisagistas, inclusive com o apoio de um mestre de Chá.

Arquivo: NijojoGarden3317.jpg

O pé direito é altíssimo, as obras de artes de pinturas no teto dão um tom de sofisticação aos castelos, as amplas salas de cerimoniais, como a de reuniões do xoguns com seus vassalos, a construção da hierarquia dele fica num tatame só que mais elevado, tudo detalhadamente planejado.

Arquivo: Nijojo-roka-tenjo2.jpg

O castelo foi amplamente usado como sede administrativa e política da realeza até 1939, inclusive em 1928 o imperador Hiroito foi coroado neste castelo demonstrando a sua importância para o povo japonês, o passado de glória do xogunato não foi enterrado pelo capitalismo florescente naquela época.

Arquivo: Taisehokan.jpg

Ryoan-Ji

O templo do Dragão em paz (Ryoan-Ji) é bem pequeno, mas de grande significado, pois é o mais famoso templo Zen do mundo. Era residência da Família Fujiwara, mas foi desapropriado após a Guerra Onin, o clã Hosokawa tomou a propriedade e mandou destruir a construção original, erguendo em seu lugar o famoso templo, que serviu de cemitério para os imperadores desta dinastia.

As sete tumbas dos imperadores Hosokawa: – Uda , Kazan , Ichijō , Go-Suzaku , Go-Reizei , Go-Sanjo e Horikawa foram lá enterrados como símbolo da humildade após a morte. A Tsukubai (agachar) local da bacia de água que cai e o visitante se curva para lavar as mãos e boca para se purificar, o modo como foi construído obriga o gesto de semi-ajoelhar. No topo está escrito: “o que se tem é tudo que se precisa” É o ensinamento básico e anti-materialista do budismo.

Arquivo: Tsukubai2.JPG

Mas, o que mais impressiona mesmo é o jardim das pedras, uma pequena arquibancada de três batentes ao longo do jardim é o local que cada um deve se sentar e tentar ver todas as pedras de uma única vez. Só aquele que se concentra e atinge a iluminação consegue vê-las todas juntas. Esta contemplação, mais que um desafio, é a busca da reflexão, da necessidade de se abstrair do mundo material e se conectar com o etéreo. Olhamos e vemos rapidamente ao mesmo instante 14 pedras, mas a 15ª sempre nos escapa. Esta é a essência do lugar, a humildade de saber reconhecer nossos limites.

Este jardim de pedra seca é amplamente estudado, gerando vários estudos sobre eixo de simetria e eixo medial. Ao se atingir grande grau de concentração as 15 pedras formam uma imagem nova, uma projeção cerebral totalmente diferente do imaginado.

20070726_Ryoan-ji_veranda.jpg

0 thoughts on “Crônicas do Japão XVII: Kyoto IV – O caminho da Iluminação”

  1. Certo é que há muito náo me emociono como me emocionei com esta matéria. Coisa mais linda do mundo. Senti-me fazendo
    parte da história deles.

    “…o visitante se curva para lavar as mãos e boca para se purificar, o modo como foi construído obriga o gesto de semi-ajoelhar. No topo está escrito:
    “o que se tem é tudo que se precisa”
    É o ensinamento básico e anti-materialista do budismo.

    Agradecida, viu, pela honra e prazer de mais uma vez te ler
    e me emocionar.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: